quinta-feira, 12 de março de 2026

As terras da Lezíria ribatejana deviam ser Património Mundial da Humanidade

O Alentejo é hoje um território quase deserto e o Ribatejo para lá caminha se não houver coragem política para mudarmos de rumo.

Fui testemunha dos estragos que as cheias fizeram nos campos da Lezíria, e nem imagino, ou imagino e não quero armar-me em justiceiro, os prejuízos que a grande maioria dos agricultores sofreram com as descargas à bruta das barragens. Dantes, quando as galinhas tinham dentes, as cheias eram notícia não pelo espectáculo que proporcionavam, mas pelos prejuízos que causavam. Desta vez, com o que se passou e ainda passa com o desastre causado pelas tempestades, os problemas do assoreamento do Tejo, a falta de vigilância das marachas e tudo o que falta ao nível do ordenamento do território, vai fazer com que os prejuízos causados pelas descargas mal medidas das barragens fiquem por conta de quem ousa trabalhar a terra, insistir na ilusão de que os campos do Ribatejo são mesmo património da Humanidade, tal como as igrejas e os conventos e outros monumentos de pedras milenares. O assoreamento do Tejo é um problema que vem do antes do 25 de Abril de 1974. Daí para cá, com as alterações na floresta, a eucaliptizacão dos territórios, o nível de assoreamento aumentou de forma que ninguém quer saber, muito menos quem devia cuidar do que é seu e está organizado em cooperativas e associações.  Os agricultores são cada vez menos e cada um trabalha para sobreviver. Não há tempo para organizar e muito menos militância para protestar. Já não é o fascismo que nos impede de cairmos na desgraça, agora é o comodismo e a falta de líderes locais e regionais. As organizações de agricultores estão de mãos atadas porque muitos que as lideram têm rabos de palha e também têm que defender os seus interesses. Estamos a bater no fundo porque os velhos desistiram de lutar e os novos rendem-se às evidências. Os espanhóis vêm aí com as suas estufas porque o Alentejo já deu o que tinha a dar. O Alentejo é hoje um território quase deserto e o Ribatejo para lá caminha se não houver coragem política para mudarmos de rumo.


Há muitas décadas, muito mais de meio século, ouvi dizer pela primeira vez que o cemitério está cheio de pessoas insubstituíveis. A frase acompanha-me desde essa altura e nunca a esqueci como outras mais leves (quem não viaja não tem ilusões) que guardo para um dia tatuar num braço, provavelmente quando já não tiver pernas para viajar.

Lembrei-me de escrever sobre o assunto porque estou a quase 7 mil quilómetros de Santarém, e passei a manhã no computador a fazer o que qualquer pessoa podia fazer por mim, que era ler o meu correio e despachar só os assuntos mais importantes. Com esta mania de que tenho que controlar tudo como há meio século, hoje vou chegar atrasado ao centro da cidade, onde me esperam assuntos urgentes como procurar três livros num alfarrabista, comprar uma viagem cheia de complicações por causa de um destino que não tem voos directos, participar numa master class sobre como escrever um romance histórico, dado por uma amiga que é só uma das escritoras vivas mais importantes da literatura em língua portuguesa, e entre tantas outras tarefas importantes comprar um adaptador para o cabo do computador e entregar o que estou a usar que me foi emprestado na portaria do hotel. É mais que certo que por causa da manhã de trabalho ao computador não vou ter tempo de dar o mergulho da praxe no mar azul onde quase vejo a minha sombra da janela do hotel onde escrevo esta crónica.

Antes de sair para o sol abrasador que me obriga a proteger a pele para não ficar da cor do tomate maduro, dou uma volta pelo trabalho que acabei de fazer e sinto a missão cumprida. Não fiz nada de jeito, comparado com quem trabalha na redacção a paginar e a escrever os textos que quinta-feira chegam à caixa do correio no papel de jornal. Estou ainda à vontade para dizer que aquela frase das pessoas insubstituíveis fez o seu caminho, e hoje estou muito mais capaz de aceitar a morte e deixar de trabalhar, do que naquela altura em que achava que para chegar à idade que tenho hoje era preciso que Deus descesse à terra. JAE.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Os gestores públicos que acabaram com a Excelência do Hospital Vila Franca de Xira

Cinco anos depois de adoptar o modelo de Entidade Pública Empresarial, deixando para trás oito anos de gestão público privada, o Hospital Vila Franca de Xira está sem serviços que já foram considerados os melhores do país. Os últimos anos de gestão foram um desastre que ninguém assume para vergonha dos nossos políticos e da nossa gestão pública.


Não podemos sacrificar na cruz um gestor por ele ser incompetente e não saber. Mesmo que seja um gestor incompetente, e tenha a noção da sua incompetência, ninguém o obriga a dar a mão à palmatória se quem o escolheu e nomeou gestor não o convidar a abandonar o cargo. O MIRANTE acompanhou de perto a gestão do Hospital Vila Franca de Xira desde a sua inauguração, e na altura própria, quando o hospital foi considerado um exemplo, premiámos os seus gestores e reconhecemos o seu trabalho. Quando a Parceria Público Privada acabou, e a gestão passou para o Estado, não deixámos de continuar a fazer o trabalho de escrutínio do hospital dando voz a quem sofreu na pele a incompetência dos gestores públicos que foram substituir os privados. Não é altura para recordar as infelicidades de quem teve o azar de cair nas malhas dessa gestão incompetente do Hospital Vila Franca de Xira, mas também não seria justo que calássemos as críticas, que não recordássemos o nosso trabalho editorial, agora que o hospital passa por uma situação que ninguém previa, que é o fim de serviços hospitalares essenciais para um verdadeiro Serviço Nacional de Saúde (ver página 16 desta edição).

Neste meio tempo, entre a saída do anterior gestor público e a entrada de um outro, soubemos, quase em segredo, e o quase não é apenas uma figura de estilo, como a gestão do Hospital VFX bateu no fundo, dando origem às tragédias que aqui contámos ao longo destes últimos anos, e a muitas outras que terão acontecido e ficaram entre quatro paredes. Por mais que se exija de um jornal que conte as verdades, e desmascare as incompetências, há linhas que não se podem ultrapassar, ou corremos o risco de ficarmos presos nas armadilhas que nós próprios quisemos desmontar.

Se o Governo não acudir ao Hospital Vila Franca de Xira, que haja alguém que dê o rosto pelo falhanço da sua gestão depois do hospital ter sido considerado durante vários anos um exemplo nas práticas dos seus profissionais, como aconteceu em 2018 quando recebeu o prémio mundial pela redução do consumo de antibióticos, e no início de 2020 quando foi classificado como “o Hospital mais bem gerido do país”, avaliado por um conjunto de mais de cem instituições, como o único hospital público que obteve a classificação máxima de Excelência Clínica (três estrelas) em seis áreas clínicas, nomeadamente, Cirurgia de Ambulatório; Unidade de Cuidados Intensivos; Cuidados Transversais (Avaliação da Dor Aguda); Neurologia (Acidente Vascular Cerebral); Obstetrícia (Partos e Cuidados Neonatais) e Pediatria (Cuidados Neonatais).

Estamos a escrever só uma pequena parte da história de sucesso que foi o Hospital Vila Franca de Xira até ao dia 1 de Junho de 2021, quando a instituição passou oficialmente para a esfera da gestão pública, adoptando o modelo de Entidade Pública Empresarial, terminando a parceria com o grupo José de Mello Saúde.

Não sabemos se estas palavras fazem doer a alguém que está do nosso lado, e que lamenta tanto como nós a gestão incompetente dos gestores públicos; se estamos a acender uma fogueira que pode ser considerada pelos mais puristas como uma forma de combustível da antiga inquisição; é muito provável que sim, não é fácil lidar com as derrotas dos gestores do Estado, que conquistámos com o 25 de Abril de 1974, e ainda menos com a liberdade que temos de escrever aquilo que nos vai na alma e não é só o que agora está à vista de todos: O Hospital Vila Franca de Xira esteve entregue nos últimos quatro anos a quem não o soube gerir, e quem paga as favas somos todos nós que precisamos do Serviço Nacional de Saúde como de pão para a boca. JAE.