quinta-feira, 2 de abril de 2026

A Universidade do Ribatejo e o futuro Aeroporto Internacional de Lisboa

Interessa-me muito mais o anúncio da criação da Universidade do Ribatejo que o debate sobre o futuro Aeroporto Internacional de Lisboa. Mas não escondo a surpresa de perceber que toda a gente se calou sobre um assunto que nos pode arruinar para mais meio século de vida colectiva. 

A escolha da localização para o futuro Aeroporto Internacional de Lisboa continua a conquistar espaço na imprensa embora com uma regularidade muito abaixo do que se esperava.  O último texto de Luís Janeiro, no jornal Observador, é só mais um motivado pela militância de técnicos e cidadãos empenhados numa solução razoável, do que na concretização da escolha do Campo de Tiro para um projecto megalómano, difícil de concretizar, embora não impossível, porque os dinheiros públicos para obras faraónicas não conhecem limites embora vivamos actualmente no início de uma terceira guerra mundial, com os governantes dos países mais poderosos como EUA e Rússia liderados por homens de outra estratosfera.

No último mês viajei por várias cidades e frequentei muitos aeroportos. Mais do que espaços onde circulam aviões de passageiros, os aeroportos são as novas cidades do futuro, onde se pode dormir, trabalhar, fazer compras de luxo, combinar encontros ao mais alto nível, seja entre chefes de Estado ou chefes do crime organizado, realidade cada vez mais presente nas nossas democracias. O turismo está a atingir os máximos nas principais cidades do mundo, incluindo Lisboa, embora o número de hotéis em construção pareça indicar que a terra de Santo António ainda tem mais uma dúzia de ruas Augusta para encher de restaurantes e esplanadas, lojas de pastéis de nata, de bacalhau e de lembranças que chegam da China a preços para todos os bolsos.

 Escrevo sobre o assunto porque acho inacreditável que o debate sobre o futuro aeroporto esteja resumido à intervenção de duas ou três personalidades da nossa vida pública, mesmo assim com espaço de opinião procurado por eles e não por iniciativa de quem tinha obrigação de manter o debate vivo e aceso, porque é claro que se o aeroporto for mesmo para Benavente, a coisa vai demorar, vamos continuar a aumentar o atraso civilizacional em comparação com os outros países da Europa, e quando chegar a hora H ainda corremos o risco de preferir aterrar em Madrid e regressar a casa apanhando o comboio de alta velocidade. Resumindo: eu pagava do meu bolso para ler o que é que o antigo ministro dos aeroportos, o antigo (e futuro?) líder do PS, Pedro Nuno Santos, tem para nos confessar das suas actuais conversas com as bruxas de serviço ao seu partido. 

O anúncio da criação da Universidade do Ribatejo interessa-me mais, pessoalmente, que o destino que estão a traçar para o futuro aeroporto de Lisboa. Sou testemunha privilegiada dos desabafos do historiador e homem de cultura, Joaquim Veríssimo Serrão, cujas palavras e desafios nunca foram ouvidos pela classe política. Nos últimos anos tive a ousadia de desafiar pessoalmente alguns dirigentes a darem esse passo em frente, mas nunca falei com pessoas destemidas e corajosas. Não vou citar nomes, mas um deles deu-me uma resposta que não vou esconder: “estou velho para lutas dessas, estou quase no tempo de ter paz e sossego”.

A chegada de João Leite ao poder pode não agradar a muita gente, o que é normal, mas ele veio desassossegar o meio escalabitano. Não é pelo simbolismo das medalhas de ouro da cidade que está a entregar a grandes figuras e a pequenas figurinhas, é pela dinâmica que tem imprimido no concelho, pela coragem com que assume desafios como a ligação da cidade ao rio Tejo, que Moita Flores falhou redondamente e era um dos seus primeiros objectivos; pela forma como encostou os socialistas às cordas e silenciou mais uma vez essas almas penadas que já mandaram no burgo e deixaram tudo pior do que no tempo em que D. Afonso Henriques conquistou as muralhas aos mouros. Se João Leite tiver sorte e não descurar o trabalho de equipa, não fizer cedências aos Barreiros desta vida que dão com uma mão e recebem com a outra, Santarém poderá estar irreconhecível no final dos seus dois mandatos, sim, escrevo dois porque como a cidade e o concelho estão, oito anos é tempo suficiente para virar isto tudo do avesso. JAE.