terça-feira, 30 de abril de 2013

Eu amo o 25 de Abril


Eu amo o 25 de Abril. Estou condenado em tribunal, por enquanto, por ter escrito que um político, no exercício das suas funções de político, era o maior idiota político que conhecia; e tenho em cima das costas um pedido de execução do tribunal no valor de 3 milhões de euros, só para contar dois casos que me obrigam a ser jornalista, a medo, em certas ocasiões. Mesmo assim, sabendo que Portugal é um país cada vez mais perigoso para o exercício da cidadania, eu amo o 25 de Abril.
Se um dia me espetarem um punhal nas costas e não morrer da punhalada continuarei a amar o 25 de Abril por tudo o que a Revolução dos Cravos significou para os homens da minha geração que, nessa altura, tinham 18 anos e não frequentavam o liceu e, alguns deles, nem saíam da escola com a 4ª classe.
O Mundo que vivemos hoje é mil vezes mais interessante que o de há 39 anos. Mas há realidades que parecem recuperadas de há meio século. O desemprego cresce a um ritmo galopante mas a maioria dos desempregados prefer morrer à fome que aceitar trabalho que não possa ser feito com luvas de pelica; há gente bem empregada que de um dia para o outro cavalga as costas do patrão como se ele fosse o palerma de serviço à economia portuguesa quando não à economia familiar de cada um dos seus colaboradores; há pessoas que ganham o ordenado mínimo e têm vários cartões de crédito daqueles a quem os banqueiros aplicam taxas de juros de 40%; há milhares de jovens desempregados que não sabem abrir a boca para se apresentarem numa entrevista de emprego.
Eu amo o 25 de Abril mas reconheço que faz falta gente mais bem preparada para governar o país. Esta gente da política, salvo raras e honrosas excepções, não só é idiota como fazem de nós estúpidos e cavalgaduras ao comerem tudo e não deixarem nada como diz o refrão da cantiga do Zeca Afonso. Concordo em boa parte com os pessimistas do regime: esta gente é má demais para levar isto a bom porto. Não falo só dos políticos; falo de todos nós, incluindo a classe jornalística que não sabe criar empregos, quando a forma de comunicar é cada vez mais barata e está ao alcance de todos.
O nosso futuro em liberdade está em risco e os homens livres já têm, neste momento, as mãos atadas embora ainda possam gritar por socorro. Vivemos um tempo que não é para os poetas nem para a poesia. Por isso vou mais uma vez à manifestação do 1º de Maio à Avenida da Liberdade em Lisboa. Vou só ver. Não tenho vocação para desfilar seja em que situação for. Mas sou homem de andar na rua com o punho erguido e não tenho vergonha de confessar que nasci comunista e arrisco-me a morrer anarca.

terça-feira, 23 de abril de 2013

As cheias do Tejo e Rafael Duque o Ministro de Salazar


“Chegou a hora dos postes mijarem nos cachorros”. O ditado foi ouvido do outro lado do Atlântico e cada um que faça a sua leitura. Na net não há entradas para o provérbio. Provavelmente ainda não chegou à mesa de trabalho dos estudiosos da sabedoria popular.
Algumas terras do campo de Alpiarça estão ainda literalmente alagadas pelas águas da chuva e das cheias do Rio Tejo. São terras que nos últimos anos foram mexidas pelos seus proprietários de forma a ganharem o terreno que dantes servia para valados e valas. Dificilmente vai haver sol suficiente para secar tanta água represada. Em algumas daquelas terras as culturas deste ano estão comprometidas. Este é o preço da ganância? O preço da irresponsabilidade? O preço a pagar por ter deixado de existir uma autoridade que fiscalize e seja boa conselheira ao mesmo tempo? O Vale do Tejo é a região de onde sai a grande fatia da produção agrícola nacional. Não se percebe a falta de ordenamento e de regras. O assoreamento do Tejo vê-se pelos buracos que a água fez nas terras confinantes com o rio; e a água só correu desalmadamente durante umas horas; imagine-se uma cheia como as de antigamente. Metade da areia que o Tejo tem a mais um dia vem parar ao meio do campo. Ai vem vem. Entretanto vamos encolhendo os ombros e assobiando para o lado como se o problema fosse com os espanhóis.
O jornal “Público” publicou no dia 13 de Abril um artigo de opinião de Miguel Motta, professor catedrático jubilado, que tratava fundamentalmente do tema agricultura e da diferença entre a capacidade da produção holandesa e portuguesa. Diz ele, para acentuar o atraso dos portugueses que ao longo de um século o único ministro da Agricultura que compreendeu a importância da ciência na agricultura, e fez a única reforma que deu um enorme avanço a este sector foi o dr. Rafael Duque, com a sua excelente legislação de 1936 (:). Estamos conversados? Parece que sim. Não li nada, a contrapor esta opinião, por parte dos grandes defensores das ovelhas do rebanho abrilista a que me orgulho de pertencer.
JAE

quarta-feira, 17 de abril de 2013

João de Matos Filipe


Trancanis da proa/braços/ cavernas/ traste/ cágado do remo/ chama/ costado/ tábua das bufas/ buraco do trapeiro/ leito/ entre pares/ chumaceira/ draga/ vertedouro/ fiéis/ proa.
Parece um poema surrealista mas não é. São descrições de algumas das peças e espaços de um barco picareto identificado no livro “Cultura e Artes da Pesca Tradicional em Ortiga-Mação”, da autoria de João de Matos Filipe. O livro tem sido pretexto para o autor divulgar a sua paixão pelo Rio Tejo e dar testemunho das muitas horas de estudo sobre os 8 Km de rio que bordejam o território da Ortiga, as tradições e a azáfama dos pescadores. Luís Mota Figueira, Professor Coordenador do Politécnico de Tomar, diz na apresentação do livro que João de Matos Filipe “ iluminou uma parcela muito significativa das artes da pesca tradicional, porque integra as provas, os testemunhos, as evidências e a sua reflexão profissional, como que elaborando um fresco sobre as artes do rio, cuja composição e estética acabam por resultar da naturalidade com que esboça, pinta e nos explica a realidade interpretada”.
O livro é ainda uma homenagem ao povo da Ortiga e ao mesmo tempo um preito ao rio da nossa infância que, para muitos de nós, é sinónimo de lazer, trabalho e prosperidade. Quem cruza o rio Tejo todos os dias, como é o nosso caso, e aproveita os tempos livres para fruir do seu leito e das suas margens, só pode estar agradecido ao historiador local que nos devolve em conhecimento e sabedoria o nosso “Rio de Emoções” parafraseando Carlos Cupeto que assina o prefácio.
JAE

sexta-feira, 1 de março de 2013

O único jornal de referência que não pertence a um grande grupo económico*

A forma como nos organizamos, em termos jornalísticos e comerciais, o conceito de empresa jornalística que criamos ao longo dos anos não tem paralelo em nenhum órgão de comunicação social nacional ou regional. Nestes 25 anos de existência já nos viraram do avesso algumas vezes.

Cumprimento especialmente a nossa anfitriã, Maria do Céu Albuquerque. Este momento é único, porque é a primeira vez que Abrantes acolhe uma das nossas iniciativas que não estão relacionadas com publicação de livros ou outras iniciativas culturais.

Cumprimento todos os restantes amigos e convidados, algumas de quem sou também amigo e admirador, num amplo abraço já que para nós não sois público mas convidados especiais, aliás, muito especiais, tal foi o cuidado que a Joana e a equipa de O MIRANTE procuraram ter na organização da iniciativa e no convite a todas as pessoas que estão hoje aqui presentes, nomeadamente os amigo e familiares das personalidades que os jornalistas de O MIRANTE elegeram.

Aproveito a ocasião para deixar aqui um testemunho que eu acho que não nos fica mal recordar. Noutros tempos, quando éramos mais jovens e mais pobres de espírito e, logicamente, mais sedentos de vida, caminhamos para Abrantes centenas de vezes fazendo o caminho da estrada nacional que é muito difícil mas muito bonito para quem gosta da paisagem e tem amor ao rio.

O médico José Vasco, que era uma figura desta terra, faz parte das minhas principais memórias. E, embora por razões bem tristes, hei-de viver até à eternidade e jamais esquecerei os tempos em que entrava no seu consultório ou ficava cá fora a conviver com os inúmeros doentes que vinham a Abrantes de todas as terras à volta.
Já lá vão mais de trinta anos mas parece que foi ontem. E a figura do medico amigo jamais me sairá do pensamento embora não fosse eu o seu doente.
Fica aqui a homenagem a um homem que eu sei que muita gente ainda lembra como se ainda ontem se tivesse cruzado com ele ou visitado no seu consultório.

Como é do vosso conhecimento O MIRANTE comemorou 25 anos em Novembro. É uma data que nos enche de orgulho embora saibamos que temos muito para fazer. Passo a passo, com mil cuidados umas vezes, arriscando quase tudo muitas outras, fizemos de O MIRANTE um jornal de referência para uma região, um jornal de referência como não há outro na nossa área de influência. Parece fácil manter a qualidade editorial e crescer todos os anos de forma a cumprirmos a nossa missão. Parece mas não é. O MIRANTE foi quase sempre um jornal de referência também pelo volume de publicidade que manteve e que mantém nas suas páginas e em todas as edições. Somos em Portugal o único jornal de referência que não pertence a um grande grupo económico. O único não me canso de repetir. Dito assim parece uma banalidade. Quem sabe o que custa viver e sobreviver num mercado dominado por uma concorrência desleal, num mercado onde a comunicação social é dominada por patrões que ganham dinheiro noutros negócios para perderam nos seus jornais e televisões, quem sabe isto, percebe melhor e entende melhor o significado que atribuo ao facto de sermos um jornal independente, que pode praticar um jornalismo de proximidade sem a canga de um patrão ou de um investidor que precisa do jornal para servir os seus interesses pessoais ou os das suas empresas.

Não há em Portugal outro jornal que tenha um caderno de classificados como O MIRANTE. Não há em Portugal outro jornal, muito menos um jornal regional, que abranja tantos concelhos e tantas freguesias como o nosso. Não há em Portugal outro jornal' rádio ou televisão regional, que tenha no terreno uma equipa de profissionais que trabalhe tão próximo das populações, que alimente tanto as redacções de outros órgãos de informação cujos profissionais estão sentados à secretária praticando o chamado jornalismo de influência, sem levantarem o rabo das suas cadeiras almofadadas.

Não conheço outro jornal em Portugal que dê tanto espaço aos leitores. E mais daríamos se vivêssemos numa região, num país, onde a sociedade civil fosse mais exigente e consciente do seu papel na conquista dos direitos de cidadania.

Não conheço outro jornal que tenha tantos processos em tribunal como O MIRANTE. Caso para dizer que nesta altura temos a cabeça no cepo; e se a justiça ou o sistema de justiça se for degradando como tem sido público e notório de certo que não teremos hipóteses de sobreviver. Não morremos do mal, não cairemos nas muitas batalhas que travamos todos os dias, mas podemos morrer no campo de batalha traídos pela falta de justiça que tanto defendemos a tentamos respeitar no nosso trabalho diário.

Nada de queixinhas. Mas as liberdades conquistadas com o 25 de Abril já não são o que eram. Principalmente para os que teimam em lutar com as armas do trabalho, da independência e assumem a rebeldia na defesa de causas que são tão velhas como a honestidade, sem olharmos aos riscos de vivermos numa sociedade e numa época de lobistas, sindicatos e sindicalistas manhosos.

A forma como nos organizamos, em termos jornalísticos e comerciais, o conceito de empresa jornalística que criamos ao longo dos anos não tem paralelo em nenhum órgão de comunicação social nacional ou regional. Nestes 25 anos de existência já nos viraram do avesso algumas vezes. Uma delas alterando as regras do PP. Só num país de velhos do Restelo que não saem de Lisboa e quando viagem para o estrangeiro não passam de Badajoz. Mais recentemente cortando toda a publicidade que facturávamos junto de entidades concelhias que eram e deveriam continuar a ser uma fonte de receita que ajudasse a pagar o serviço público que prestamos á comunidade. Este último caso só não nos derrubou ainda porque temos bons alicerces Porque estamos sempre preparados para o pior. Porque nunca embandeiramos em arco nem dormimos na forma. Mas seria injusto não referir a traiçãozinha deste Governo em que fomos o alvo principal. O Governo da nação mandou cortar toda a publicidade obrigatória de certos actos públicos, que ajudavam à transparência da coisa publica, e nós, que ao longo dos anos fomos semeando e conquistando a posição que achamos que deve ter um jornal regional, de um dia para o outro ficamos a chuchar no dedo.

Infelizmente não estamos sozinhos. Para mal do país as pessoas também estão a perder uma boa parte das suas reformas. E muita dessa gente só se reformou depois de uma vida de trabalho e de descontos chorudos para o sistema. Ao contrario de outros que se reformaram com 40 e poucos anos e esses sim merecem ser penalizados se é que alguém merece que o Estado falte com aquilo que prometeu seja lá ele quem for e tenha lá a idade que tiver já que as leis são para cumprir e não para que os políticos façam delas gato sapato.

É um grande desafio editar um jornal como O MIRANTE, semanalmente no papel e todos os dias na Internet É com muito orgulho que mantemos a qualidade editorial do nosso jornal e continuamos a conquistar os anunciantes da nossa região.

Para nós não chega sermos um exemplo a nível nacional e um projecto jornalístico cheios de desafios que atrai muitos daquelas que acham que a solução para as más notícias está na capacidade e no poder para matar o mensageiro.

Quem lê o nosso jornal todas as semanas e o recebe a um preço literalmente abaixo do seu custo, acha normal e esfrega as mãos de contentamento. E nós agradecemos. É para isso que trabalhamos todos os dias. Corremos por nossa conta e assumimos os riscos por inteiro. quando não chegarem os 7 dias de trabalho, as 12 horas por dia começamos a trabalhar de noite como os morcegos. E se houver alguém que conheça outra forma de resolver um problema de uma empresa que não seja com mais trabalho e com mais suor e inspiração então temos que repensar toda a nossa vida porque os deuses devem estar loucos e quanto a nós não deverá ser caso para menos.

Os números da marktest que atestam a influência dos jornais junto dos leitores, não nos deixam mentir. O MIRANTE é o primeiro jornal entre todos na sua área de influência ao nível da fidelidade e da afinidade. Nem o os jornais mais populares, por mais sangue que deitem das suas páginas ou ao contrário, por mais gente influente que escreva nas suas colunas, conseguem roubar-nos a liderança nos 23 concelhos onde somos e queremos continuar a ser o jornal da terra.

Por isso é que estamos aqui. Por isso é que temos a independência e a autoridade para premiarmos pessoas como o Senhor José Bioucas, ou o Senhor Joaquim Santana só para falar agora dos mais antigos e dos mais vividos dos premiados deste ano.

Um dia já distante o Bispo de Santarém, depois de ser entrevistado por dois jornalistas de O MIRANTE, perguntou-lhes, para fazer conversa, o que é que eles iam fazer a seguir. Quando lhe disseram que iam trabalhar para a redacção ao lado de outros camaradas jornalistas o Bispo abriu a boca de espanto e perguntou se era mesmo verdade que eles trabalhavam a tempo inteiro no jornal.

Há dias uma colega foi facturar a uma empresa aqui bem perto de Abrantes . O cliente, rendido à simpatia e ao profissionalismo da colega, perguntou-lhe com o dedo apontado quanto é que o patrão lhe pagava porque ele dobrava a parada.

Só precisava que ela soubesse mexer bem num computador e que lhe desse banho porque ele já tinha caído já duas vezes na banheira.

Um dia alguém mandou parar o carro de um nosso colega, também lá onde nem o diabo se lembra que vive gente, e desabafou com ele pendurado na janela da viatura; Vocês por aqui, é pá é uma alegria ver um carro de O MIRANTE . O vosso jornal é leitura de toda a gente deste lugar onde nem os políticos vêm em tempo de campanha eleitoral.

Temos mil histórias para contar desta vida de andarilhos e de escrita pela noite dentro. Não temos tantos quilómetros nas pernas como os músicos dos Quinta do Bill, nem tantas horas de olho fino como o Nené a ver para que lado marram os toiros, Nem sabemos tanto de politica como a deputada Carina Oliveira, que tem a escola da Assembleia da Republica, Jamais conseguiremos ser jornalistas de proximidade como o Dionísio Mendes é presidente de câmara; Nunca chegaremos aos calcanhares do Mário André a deitar a mãe a uma dificuldade, por muito anos que vivamos nunca mais conseguiremos apanhar o passado antifascista e cheio de referências culturais, nos tempos difíceis que vêm de outros séculos da Euterpe Alhandrense, e por muita música que possamos ouvir e instrumentos que aprendamos a tocar ficaremos sempre de boca aberta a ver como se organizam em termos empresariais e associativos o Conservatório de música de Ourém e Fátima e o Sport Clube Operário de Cem Soldos. Por último: o Juventude Amizade e Convívio é um caso raro de êxito no desporto, principalmente feminino, e nós somos todos uns trambolhos se nos tirarem o ofício da escrita ou, noutros casos, a capacidade de ajudarmos a duplicar negócios com a publicidade que vendemos para o nosso jornal.
O jornalismo de proximidade obriga-nos a viver o ofício com paixão, e a trabalhar os textos e as imagens de forma aprofundada, tentando fugir ás rasteiras das nossas fontes, procurando e aprendendo sozinhos a cumprirmos as mais elementares regras da nossa profissão, sabendo que todos os dias nos cruzamos, na rua, ou por aí, com as pessoas que são alvo das nossa notícias ou que, de uma maneira ou de outra, estão retratadas no nosso trabalho.

Os prémios Personalidade do Ano, a par do Galardão Empresa do Ano que organizamos em conjunto com a NERSANT, são a nossa aposta e o nosso compromisso com a região onde vivemos e trabalhamos, e com as pessoas que ajudam a transformar a região e a fazermos o caminho do progresso, seja lá isso o que for, e demore lá os anos que demorar a fazer-se sentir nas nossa vidas e nas vidas dos nossos filhos e netos.

* Discurso lido na cerimónia de entrega dos prémios Personalidade do Ano realizada no Cine Teatro S. Pedro em Abrantes no dia 21 de Fevereiro de 2013

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

“Lavar a roupa suja”

Esta semana O MIRANTE é um pequeno repositório de versos brejeiros que anunciam as várias iniciativas organizadas na região em Quarta-Feira de Cinzas. Em todas elas
O MIRANTE esteve presente e, aqui e ali, tratado e maltratado como mandam as regras do Carnaval e dos testamentos que são escritos muitas vezes por gente pouco letrada mas muito sabida e, em muitos casos, por pessoas que não só sabem escrever como sabem fazer crítica social.
Fica aqui uma palavra de apreço para um grupo de jovens da Chamusca que não só continua a tradição, com os velhos de pantufas em casa a morrerem antes do tempo, como melhoraram e muito a qualidade “literária” do testamento embora toda a liberdade que sempre é permitida, e deve ser abusada, nestas alturas de “lavagem da roupa suja”.
Pela primeira vez O MIRANTE publica uma reportagem do testamento lido na Póvoa de Santa Iria. Já não era sem tempo. Mesmo assim a reportagem fica aquém daquilo que o acontecimento merece. Esperamos melhorar no próximo ano e estarmos mais atentos.
Não é normal que em cidades como a Póvoa de Santa Iria o pessoal escreva testamentos que não ficam a dever nada àqueles que são escritos para comunidades pequenas onde todos se conhecem. Só quem vive no seio destas grandes comunidades percebe que tudo funciona como nas pequenas. A diferença está apenas na diversidade. O resto é tudo igual. Quem julga que as grandes cidades como a Póvoa não têm vida própria e gente bairrista engana-se redondamente. Basta estar atento ao trabalho associativo e às actividades que se organizam todos os dias e muitas vezes enchem os fins de semana. Mesmo que a participação seja escassa ninguém desiste. E, ao contrário do que acontece nas comunidades mais pequenas, os dirigentes marimbam-se para o presidente da junta e fazem tudo, ou quase tudo, como se a política não existisse. Mas é claro que os políticos não passam despercebidos e levam na cabeça nas alturas certas.
Recuperamos uma das quadras deste Enterro do Galo onde O MIRANTE foi citado e onde um presidente de junta de freguesia, que representa uma das cidades mais identificadas como dormitório de Lisboa, levou que contar.

“Só em festas importantes/Na Póvoa de Santa Iria/Aparecem os representantes/Da Junta de Freguesia.
Julgam-se gente importante/E não se juntam ao povo/Foram notícia em O MIRANTE/e não vimos nada de novo.
O entrudo e amigões/Numa tarefa conjunta/Deixa merda e cagalhões/Para os engravatados da junta”.

Comentário às noticias:
http://semanal.omirante.pt/index.asp?idEdicao=588&id=89532&idSeccao=10057&Action=noticia
http://semanal.omirante.pt/index.asp?idEdicao=588&id=89534&idSeccao=10057&Action=noticia
http://semanal.omirante.pt/index.asp?idEdicao=588&id=89535&idSeccao=10057&Action=noticia
http://semanal.omirante.pt/index.asp?idEdicao=588&id=89536&idSeccao=10057&Action=noticia

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Morreu o “Quim” Machado e o povo da Chamusca voltou a chorar


Uma crónica que também é notícia sobre a vida e a morte de Joaquim Ricardo Banha Machado.

Morreu com 62 anos, na Chamusca, Joaquim Ricardo Banha Machado, farmacêutico de profissão, considerado um profissional de corpo inteiro e um homem de bom coração. 
Com a morte de Joaquim Cabeça, o médico dos pobres, na altura em que ter médico de família era um luxo (já caminhamos para lá outra vez), Joaquim Machado ocupou  o seu lugar no coração do povo da Chamusca  e, por mérito próprio, tornou-se o amigo e conselheiro de meio mundo acudindo a pobres e a ricos, a doenças e a simples conselhos, como se a sua vida estivesse predestinada a servir a vida dos outros. 
Há meses que se sabia da grave doença de que padecia. Há semanas que os ouvidos mais atentos das pessoas mais amigas temiam ouvir os sinos da igreja e o seu toque a finados. Cada vez que tocavam era quase natural perguntarem  em surdina quem tinha morrido sempre com o medo de ouvirem dizer que tinha sido o Machado da farmácia.
Desde que se soube do seu último internamento que se esperava o pior. “Ele ajudou tanta gente e agora ninguém o pode ajudar a ele”. “Está condenado, dizem os médicos”, ouvia-se por toda  a Chamusca ainda há dias na boca de pessoas que, para lhe prestarem homenagem antecipada, contavam antigas conversas, memórias de há trinta anos mas também de há poucos dias. Nalguns casos, como podemos testemunhar, a saudade já se manifestava por simples palavras roubadas a propósito do avio de uma receita ou de um sorriso maroto arrancado à custa do seu superior pessimismo sobre o estado actual do seu Sporting. 
“Pagou receitas do bolso dele a muita gente pobre; trabalhou fora de horas e só Deus sabe o que é que ele fez por tanta gente”; foi isto que ouvimos e testemunhamos ao longo dos últimos dias; mas nada disto é segredo ou conversa fiada; o Quim Machado era verdadeiramente uma alma boa e um ser humano solidário sem precisar que lhe chorassem no colo ou lhe beijassem as mãos. Fazia o que tinha a fazer por dever de ofício e porque parece que Deus tem sempre alguém na terra para ajudar naquilo que Ele não pode ajudar por ser Deus e ter muito trabalho com as divindades.
No passado domingo, por volta das 13 horas, recebemos a notícia da sua morte. Tinha acabado de fechar os olhos e o coração tinha estourado finalmente. Foi antes de almoço. Foi antes de misturarmos na boca o vinho  com o pão ainda quente do forno a lenha. Ficamos durante alguns minutos à espera de ouvir tocar os sinos. Depois esperamos uma hora; depois esquecemos o tempo e acabamos também por esquecer os sinos da igreja da Chamusca que, segundo nos contaram, tocaram às  quatro da tarde.
Eram mais ou menos 17 horas de segunda-feira quando as pessoas que enchiam a igreja matriz da Chamusca começaram a sair da missa de corpo presente pela alma do Joaquim Ricardo Banha Machado, com as olheiras bem fundas, os olhos cheios de água e os semblantes carregados até ao sobrolho. Na rua havia mais gente do que aquela que cabia na igreja. O padre, que é novo na terra, e não chegou a conhecer o Senhor Machado, lembrou os presentes que lhe chegou aos ouvidos que o defunto “era pessoa de bem de alma”, frase que repetiu no cemitério antes do corpo descer à terra para avisar que fazer o bem tem os seus segredos e que o Joaquim fez o bem a muita gente que ninguém sabe quem, nem o quê, e é nisso que está a grandeza do Homem.
Quando a urna desceu os degraus da igreja os ricos, os pobres e os remediados choravam todos as mesmas lágrimas de água e sal que se afogavam no lenço ou caíam simplesmente pela cara abaixo. O carro funerário deslizou e logo se percebeu que ia passar em frente da farmácia S. Pedro onde o Quim trabalhava. Breve paragem no local para se ouvirem outra vez os choros baixinhos dos que não têm vergonha de chorar mas têm medo de incomodar com o barulho do choro. E para trás ficava a farmácia e o lugar onde o corpo foi velado, embora por pouco tempo, e onde se deslocaram muitas pessoas idosas de bengala e de andarilho. Gente que já não pode com o corpo mas que mesmo assim quis prestar homenagem ao  amigo das horas difíceis que é quando a carne dói e a alma não aguenta.
Fez-se um cortejo como já não é hábito acontecer em funerais. O trânsito não circulou durante o trajecto do Largo da Misericórdia até à curva da rua estreita que dá acesso ao cemitério da Chamusca. Junto ao carro só se murmurava. Cá atrás tocavam telemóveis, as pessoas cumprimentavam-se, os automobilistas iam interagindo com as pessoas que conheciam, o senhor José Ferreira empurrava a bicicleta e puxava pelos sapatos como se fossem uns chinelos; o Senhor Manuel puxava pelas pernas tortas e balançava o corpo como quem faz exercício na água; muita gente de braço dado, especialmente as mulheres, mas também muitos homens sozinhos, de cabeça baixa e mãos nos bolsos a contarem até cinco. Reconhecemos gente que já não víamos há anos e que nos pareceram muito mais velhas; reconhecemos outros que vieram de longe e que pareceram mais novos. Ia no funeral gente de todos os extractos sociais; os mais humildes dão sempre mais nas vistas porque vestem o fato novo; não usam telemóvel nos funerais; espelham melhor a dor dos outros porque a sentem como desgraça própria. Beiço grande e ombros caídos nos homens mais velhos; sinal de luto mas também de resignação nos homens de meia idade; costas curvadas e corpo balançado para a frente de forma a vencer o longo caminho era como andavam os mais velhos a quem o Quim Machado certamente fará mais falta com esta despedida tão apressada para quem tinha só 62 anos e gostava tanto do seu trabalho, da família e dos amigos.
Quando o caixão desceu à terra era quase noite. Já havia no céu uma lua em quarto crescente que desenhava um rosto de criança a sorrir. A Susana, filha única do Joaquim Machado, terá ouvido certamente algumas pessoas  darem-lhe os pêsames dizendo que ela devia estar orgulhosa do pai que tinha. A mãe do Quim, debruçada sobre o caixão, parecia chorar na voz baixinha do padre que encomendava o seu filho a Deus pela última vez ao cimo da terra. Depois de se ouvirem as primeiras pazadas de terra  a caírem em cima do caixão foi-se o murmurinho que ficou de duas avé marias cantadas como num coro de igreja; e começaram a ouvir-se pessoas a tossir, gente a desmobilizar que quase não faziam peso ao chão mas geravam um som que parecia vir de um vespeiro, de uma frase de Leibniz que diz que “quando canta para si, Deus canta álgebra”.
George Steiner diz que “morrer é deixar de conversar” no seu mais recente livro editado pela Relógio D’ Água, “A poesia do Pensamento”. Há mil razões para continuarmos a procurar na literatura uma resposta para a perda. O próprio Steiner cita Holderlin neste seu livro para concluir que “ser só e sem deuses é a morte. Nem o próprio ser humano que mais amamos pode pensar connosco”.
Este texto é uma tentativa de ouvirmos ainda a voz do Joaquim Machado a dar troco ao José “Prior” e aos outros amigos com quem fazia tertúlia e comentava os últimos desaires do seu Sporting; uma tentativa de libertar o espírito da agitação e da angústia, pois, como dizia Lucrécio, “a morte não pode ser vivida”, “situa-se inofensiva fora da existência” (Steiner).

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Um livro que conta a história de um rio*

Quase toda a gente tem a mania de dizer que vivemos num mundo global; que viver em Tóquio ou Londres é como viver em Mação ou Abrantes. Os extremos tocam-se. Pode ser assim na teoria; na prática é diferente. Ninguém é de lugar nenhum do mundo se um dia não for da sua própria terra; cidadão da Ortiga ou de qualquer outra cidade ou aldeia do mundo.
João Filipe, o neto do “Ti Zé Povinho”, não quis deixar morrer as memórias que formaram o Homem e o cidadão. E, aproveitando a paciência, a arte de escrever e de contar que Deus lhe deu, exercendo uma actividade cultural no verdadeiro sentido da palavra, que é transmitir conhecimentos dos valores e dos comportamentos que se aprendem de geração em geração, prestou uma singular homenagem ao povo de Ortiga escrevendo um livro que é uma homenagem ao seu povo e à sua História, sendo ao mesmo tempo uma homenagem ao rio da nossa infância que é sinónimo de lazer, trabalho e prosperidade.
Ser ortiguense, para alguns, é muito mais importante que ser lisboeta, parisiense ou londrino. Sabem isso os que nasceram numa terra e têm orgulho, não só do lugar onde nasceram como do lugar onde nasceram os seus avós e os seus pais que testemunham esse amor à terra e às tradições e os valores culturais que, esses sim, são tão importantes localmente que ganham o estatuto de património na Ortiga ou em Lisboa.
Ao lermos o livro de João de Matos Filipe podemos recuar a 1583 e ficamos a saber pela pena do autor sobre a história da fundação da aldeia da Ortiga mas também sobre a história do Caneiro de Abrantes que não deixa de ser significativa para compreendermos os homens de hoje tão entretidos com a política do betão e dos interesses milionários das companhias aéreas.
Ao ler a carta de João Antonelli ao Rei Filipe II, para que o Caneiro de Abrantes deixasse de ser um empecilho ao desenvolvimento do Rio, recuei três dezenas de anos e lembrei-me das promessas mais recentes dos nossos políticos que organizam “casamentos e baptizados” em nome da regularização do leito do rio e, que eu saiba, tudo não passa de politiquice na sua mais amanhada forma de se evidenciar.
Este livro pode ser lido pelos ortiguenses que, por ele, podem encher o peito de orgulho mas também pode ser lido pela generalidade dos portugueses que se interessam pelos problemas do país e, especialmente, pela sua história de ontem e de hoje.
O Caneiro de Abrantes faz-me lembrar, salvo as devidas distâncias e o contexto, a política de extracção de areia que está implementada no leito do rio Tejo e a forma como as autoridades vigiam as marachas e os usurpadores do espaço tão importante para manter a segurança de pessoas e bens. E ao tomar consciência da realidade do rio de há 500 anos, lendo o livro de João de Matos Filipe, não pude deixar de sorrir com a leviandade com que hoje aceitamos a forma como o rio é cuidado e preservado; como muitos de nós vão fazer vida para Lisboa e quando regressam às suas terras, seja na Ortiga ou na Chamusca, não sabem fazer mais nada do que chegar ali abaixo e “mijarem para o Tejo para ver se ele cresce”.
JAE

Texto lido na apresentação do livro de João Filipe na Ortiga.

Comentário à noticía: http://semanal.omirante.pt/index.asp?idEdicao=581&id=88386&idSeccao=9906&Action=noticia