Há cerca de 20 anos, quando éramos dois gatos pingados a escreverem neste jornal, recebemos durante quase dois anos cartas anónimas que procuravam ofender e caluniar. Pelo tipo de letra e pelas mensagens era fácil perceber que eram escritas sempre pela mesma pessoa. Na altura gostava de abrir o correio e, por causa disso, mudei de hábitos. Dei o correio a uma jovem colaboradora e dei-lhe ainda indicações para rasgar todas as cartas que chegassem sem remetente e fossem reconhecidas como da família das anónimas.
Quando ela se despediu para ir à sua vida, e antes de contratarmos outra pessoa para o seu lugar, arrumámos o espaço e a secretária. No fundo das gavetas estavam arrumadas várias cartas com datas recentes prova de que ela continuava a deliciar-se com as atordoadas que chegavam pelo correio onde eu deveria continuar a ser o bombo da festa. A história diverte-me mas não acaba aqui. Hoje, com as modernices, há gente que escreve para a caixa de comentários de O MIRANTE com endereços utilizando o meu nome e somente com a finalidade de me chamarem os nomes que regra geral compõe o dicionário do melhor calão português. Não leio mas vou sendo informado de tempos a tempos e continuo a divertir-me sabendo que há gente que ainda acha que o anonimato é uma força da natureza humana. É sim senhor; quando as pessoas fazem o bem e não precisam de reconhecimento. Quando querem criticar e não têm coragem de dar a cara, o anonimato, tratado nas grandes organizações como é a nossa, serve como lição para aprendermos a trabalhar mais e melhor sem concessões e sem medo de dar o peito às balas. JAE
quarta-feira, 29 de maio de 2013
quarta-feira, 22 de maio de 2013
A mão de Deus
Há um forno comunitário para cozer pão na aldeia da Pereira; corre uma ribeira na charneca entre o Arripiado e Constância que nos leva a paraísos que só costumamos ver nos livros e nas revistas que falam de viagens a lugares inesquecíveis; no “Outeiro Alto”, que é uma quintinha mesmo junto ao Parque Ambiental de Santa Margarida, vive o “Vento”, um cavalo de respeito que se deixa montar por qualquer sopro de vida; em Constância, junto ao Tejo, o “Pezinhos no Rio” tem uma cozinha espectacular com a sopa de peixe e a sopa da pedra a vulgarizarem (no bom sentido, é claro) os chefes de cozinha dos restaurantes típicos de Almeirim; a Ponto Aventura é gerida por um senhor chamado Carlos Silvério que tem uma excelente vocação para a direcção e para a organização de desportos radicais; a praia fluvial da Aldeia do Mato não é para os lados da Nazaré; é mesmo aqui, ali onde se chega de moto ou de bicicleta para os mais desportistas; e na aldeia podem comprar-se amendoins e tremoços avulso em quantidades e a preços que já não se usam.
Quem é que não sonha ser dono de um pedaço de terra para construir uma casa, um charco, e no meio do quintal uma vedação para criar ovelhas, cabras, pavões e galinhas? Ali, a dois passos do Parque Ambiental de Santa Margarida, em todos aqueles conjuntos de casas que dão nome a aldeias de que sempre ouvimos falar, vive- se verdadeiramente o espírito comunitário do século passado mas percebe-se que estamos no primeiro mundo, e que só a pobreza do chão, dos telhados das casas e das ervas dos caminhos, é verdadeiramente franciscana; o resto é território espiritual para qualquer pessoa explorar até se sentir dona do mundo.
A Nersant, com a organização do Challenger, proporciona uma das iniciativas mais brilhantes de serviço à região ribatejana e à sua beleza natural. Esta prova devia ser filmada todos os anos e mostrada no Centro Cultural de Belém, aos domingos, em ecrã gigante, aos meninos e às meninas que julgam que o Tejo nasce em Cascais e depois sobe até Vila Velha de Rodão; que galinhas, ovelhas e raposas são todas aquelas criaturas que as mães dizem para eles evitarem enquanto mudam do jardim do Príncipe Real para a Avenida da Liberdade, do Largo do Carmo para o Rossio ou da Praça do Comércio para o Parque Eduardo VII.
Não jogamos a partida de bilhar nem abri o computador. Neste último fim-de-semana não escrevi uma linha nem abri um livro. Mas não me livrei, no domingo à noite, de ver no cinema o recém estreado “Assalto à Casa Branca”, pura propaganda à política dos americanos que sempre acham que os europeus, alguns europeus, são estúpidos por aceitarem viver em aldeias encantadas como a Pereira, onde as armas nucleares são os excrementos dos animais que fazem crescer uma couve mais depressa que a mão abonada de Deus. JAE
Quem é que não sonha ser dono de um pedaço de terra para construir uma casa, um charco, e no meio do quintal uma vedação para criar ovelhas, cabras, pavões e galinhas? Ali, a dois passos do Parque Ambiental de Santa Margarida, em todos aqueles conjuntos de casas que dão nome a aldeias de que sempre ouvimos falar, vive- se verdadeiramente o espírito comunitário do século passado mas percebe-se que estamos no primeiro mundo, e que só a pobreza do chão, dos telhados das casas e das ervas dos caminhos, é verdadeiramente franciscana; o resto é território espiritual para qualquer pessoa explorar até se sentir dona do mundo.
A Nersant, com a organização do Challenger, proporciona uma das iniciativas mais brilhantes de serviço à região ribatejana e à sua beleza natural. Esta prova devia ser filmada todos os anos e mostrada no Centro Cultural de Belém, aos domingos, em ecrã gigante, aos meninos e às meninas que julgam que o Tejo nasce em Cascais e depois sobe até Vila Velha de Rodão; que galinhas, ovelhas e raposas são todas aquelas criaturas que as mães dizem para eles evitarem enquanto mudam do jardim do Príncipe Real para a Avenida da Liberdade, do Largo do Carmo para o Rossio ou da Praça do Comércio para o Parque Eduardo VII.
Não jogamos a partida de bilhar nem abri o computador. Neste último fim-de-semana não escrevi uma linha nem abri um livro. Mas não me livrei, no domingo à noite, de ver no cinema o recém estreado “Assalto à Casa Branca”, pura propaganda à política dos americanos que sempre acham que os europeus, alguns europeus, são estúpidos por aceitarem viver em aldeias encantadas como a Pereira, onde as armas nucleares são os excrementos dos animais que fazem crescer uma couve mais depressa que a mão abonada de Deus. JAE
quarta-feira, 15 de maio de 2013
O maior aldrabão é político
Às vezes pergunto-me sobre o que me move! Que razões tenho para continuar a fazer as mesmas coisas de há vinte anos e a cair nas mãos de passarões e passaronas que me usam como quem usa sabão azul. O que é que eu ganhei em ter passado tantas noites sem dormir a queimar as pestanas, trabalhando no duro durante o dia, para agora me entregar a um projecto que tem apenas como missão fazer serviço público?
Só tenho uma resposta: como gosto da política mas não suporto a vida política, o jornalismo permite-me a mesma intervenção pública e preocupada sobre o colectivo em que estou inserido. Também eu penso que se a sociedade falhar eu também falharei como homem e como cidadão. Não consigo ainda pensar que chegou a hora de viver dos rendimentos que é coisa que muita gente faz, até antes de ter rendimentos, vivendo, é claro, dos rendimentos dos outros. Tenho projectos de vida fantásticos e excelentes condições para os concretizar mas isso obriga-me a afastar-me do meu trabalho dos últimos anos. Todos os dias penso no assunto. Todas as manhãs salto da cama e digo: é hoje que dou a estocada final no toiro que sou eu próprio e deixo que a espada ensanguente o meu cachaço.
O maior mentiroso que encontrei na minha já longa vida disse-me, muito antes de eu perceber que ele era um aldabrão, que ia candidatar-se a um cargo público porque estava na hora de devolver ao país aquilo que o país lhe tinha dado. Vim a saber mais tarde que afinal ele foi para a política porque precisava de safar a vidinha que estava pelas ruas da amargura. Nunca mais saiu; troca de amigos como quem troca de camisa: e só falta que um dia destes caia na fossa que é o que acontece a todos os que só mexem em esterco.
Uma última nota: a Câmara de Santarém, de Francisco Moita Flores, agora de Ricardo Gonçalves, está numa classificação vergonhosa relativamente às que pagam mais tarde aos seus fornecedores. Para ganhar a câmara há quase oito anos uma das bandeiras políticas de Moita Flores foram as dívidas dos seus antecessores. Alguém tem dúvidas que a palavra desta gente já não vale para nada?
quarta-feira, 8 de maio de 2013
A vergonha do Tribunal de Almeirim
A situação do Tribunal de Almeirim é a maior prova da vergonha nacional em que se encontra a nossa justiça e o exercício político dos autarcas com responsabilidades na qualidade da nossa vida. O tribunal não funciona pura e simplesmente. Neste caso tem juízes mas só tem uma sala para as muitas audiências em espera. Confrontado com esta situação, Joaquim Sousa Gomes disse a O MIRANTE que já tinha feito o que estava ao seu alcance, que era trazer o tribunal para a cidade. Segundo ele, o resto, que é tudo, já não é da sua competência. Enfim, Sousa Gomes conquista um tribunal para a sua cidade e depois dão-lhe um presente envenenado e ele diz que não é visto nem achado no assunto.
Só para termos uma ideia do escândalo, já ouvi advogados dizerem a quem tem processos naquela Comarca que lhes mande rezar por alma. Se conseguir um acordo, mesmo mau, não pense duas vezes, pois os processos naquele tribunal vão apodrecer nas prateleiras, dizem todos os advogados com quem já falei, sejam de Lisboa, Porto ou Santarém.
É assim que funciona o país; temos cidadãos de primeira e de segunda; os de segunda são aqueles que se deixam enganar pelo governo da nação e pelo governo local. O Tribunal de Almeirim deve ser caso único no mundo: tem dois juízes mas só tem uma sala de audiência. Não acham que o assunto revolta para quem tem lá os seus processos desde que o tribunal abriu as portas? Não dá vontade de perguntar ao presidente da câmara e aos seus vereadores se não têm dois dedos de testa para devolver ao Governo o presente envenenado que prejudica os seus munícipes muito mais que a estrada por alcatroar ou até o saneamento básico? Cagar para uma fossa no quintal, beber água em casa de um quartão de barro ou alumiar a casa de noite com uma lamparina de azeite é mais à frente que ter um tribunal ao pé da porta que em vez de fazer justiça deixa que a justiça se faça com o tempo, ou seja, que as pessoas morram e outras desistam e se conformem com os interesses instalados e com a injustiça.
O MIRANTE noticiou na edição da passada semana que há um juiz de círculo cível a fazer “o jeito ao diabo” e a recuperar os processos mais antigos com julgamentos em Santarém. Deus o abençoe. Ainda há gente boa na Magistratura. Gente que não se acomoda. O que se diz é que estarão lá mais de 12 mil processos. Oficialmente dizem que é metade. Mas a gente sabe como são os números oficiais. Nem daqui a uma eternidade teremos justiça em Almeirim num tribunal com juízes mas sem salas para realizar audiências. É uma vergonha e remete-nos para os tempos de antanho quando se fazia justiça pelas próprias mãos. JAE
terça-feira, 30 de abril de 2013
Eu amo o 25 de Abril
Eu amo o 25 de Abril. Estou condenado em tribunal, por enquanto, por ter escrito que um político, no exercício das suas funções de político, era o maior idiota político que conhecia; e tenho em cima das costas um pedido de execução do tribunal no valor de 3 milhões de euros, só para contar dois casos que me obrigam a ser jornalista, a medo, em certas ocasiões. Mesmo assim, sabendo que Portugal é um país cada vez mais perigoso para o exercício da cidadania, eu amo o 25 de Abril.
Se um dia me espetarem um punhal nas costas e não morrer da punhalada continuarei a amar o 25 de Abril por tudo o que a Revolução dos Cravos significou para os homens da minha geração que, nessa altura, tinham 18 anos e não frequentavam o liceu e, alguns deles, nem saíam da escola com a 4ª classe.
O Mundo que vivemos hoje é mil vezes mais interessante que o de há 39 anos. Mas há realidades que parecem recuperadas de há meio século. O desemprego cresce a um ritmo galopante mas a maioria dos desempregados prefer morrer à fome que aceitar trabalho que não possa ser feito com luvas de pelica; há gente bem empregada que de um dia para o outro cavalga as costas do patrão como se ele fosse o palerma de serviço à economia portuguesa quando não à economia familiar de cada um dos seus colaboradores; há pessoas que ganham o ordenado mínimo e têm vários cartões de crédito daqueles a quem os banqueiros aplicam taxas de juros de 40%; há milhares de jovens desempregados que não sabem abrir a boca para se apresentarem numa entrevista de emprego.
Eu amo o 25 de Abril mas reconheço que faz falta gente mais bem preparada para governar o país. Esta gente da política, salvo raras e honrosas excepções, não só é idiota como fazem de nós estúpidos e cavalgaduras ao comerem tudo e não deixarem nada como diz o refrão da cantiga do Zeca Afonso. Concordo em boa parte com os pessimistas do regime: esta gente é má demais para levar isto a bom porto. Não falo só dos políticos; falo de todos nós, incluindo a classe jornalística que não sabe criar empregos, quando a forma de comunicar é cada vez mais barata e está ao alcance de todos.
O nosso futuro em liberdade está em risco e os homens livres já têm, neste momento, as mãos atadas embora ainda possam gritar por socorro. Vivemos um tempo que não é para os poetas nem para a poesia. Por isso vou mais uma vez à manifestação do 1º de Maio à Avenida da Liberdade em Lisboa. Vou só ver. Não tenho vocação para desfilar seja em que situação for. Mas sou homem de andar na rua com o punho erguido e não tenho vergonha de confessar que nasci comunista e arrisco-me a morrer anarca.
terça-feira, 23 de abril de 2013
As cheias do Tejo e Rafael Duque o Ministro de Salazar
“Chegou a hora dos postes mijarem nos cachorros”. O ditado foi ouvido do outro lado do Atlântico e cada um que faça a sua leitura. Na net não há entradas para o provérbio. Provavelmente ainda não chegou à mesa de trabalho dos estudiosos da sabedoria popular.
Algumas terras do campo de Alpiarça estão ainda literalmente alagadas pelas águas da chuva e das cheias do Rio Tejo. São terras que nos últimos anos foram mexidas pelos seus proprietários de forma a ganharem o terreno que dantes servia para valados e valas. Dificilmente vai haver sol suficiente para secar tanta água represada. Em algumas daquelas terras as culturas deste ano estão comprometidas. Este é o preço da ganância? O preço da irresponsabilidade? O preço a pagar por ter deixado de existir uma autoridade que fiscalize e seja boa conselheira ao mesmo tempo? O Vale do Tejo é a região de onde sai a grande fatia da produção agrícola nacional. Não se percebe a falta de ordenamento e de regras. O assoreamento do Tejo vê-se pelos buracos que a água fez nas terras confinantes com o rio; e a água só correu desalmadamente durante umas horas; imagine-se uma cheia como as de antigamente. Metade da areia que o Tejo tem a mais um dia vem parar ao meio do campo. Ai vem vem. Entretanto vamos encolhendo os ombros e assobiando para o lado como se o problema fosse com os espanhóis.
O jornal “Público” publicou no dia 13 de Abril um artigo de opinião de Miguel Motta, professor catedrático jubilado, que tratava fundamentalmente do tema agricultura e da diferença entre a capacidade da produção holandesa e portuguesa. Diz ele, para acentuar o atraso dos portugueses que ao longo de um século o único ministro da Agricultura que compreendeu a importância da ciência na agricultura, e fez a única reforma que deu um enorme avanço a este sector foi o dr. Rafael Duque, com a sua excelente legislação de 1936 (:). Estamos conversados? Parece que sim. Não li nada, a contrapor esta opinião, por parte dos grandes defensores das ovelhas do rebanho abrilista a que me orgulho de pertencer.
JAE
quarta-feira, 17 de abril de 2013
João de Matos Filipe
Trancanis da proa/braços/ cavernas/ traste/ cágado do remo/ chama/ costado/ tábua das bufas/ buraco do trapeiro/ leito/ entre pares/ chumaceira/ draga/ vertedouro/ fiéis/ proa.
Parece um poema surrealista mas não é. São descrições de algumas das peças e espaços de um barco picareto identificado no livro “Cultura e Artes da Pesca Tradicional em Ortiga-Mação”, da autoria de João de Matos Filipe. O livro tem sido pretexto para o autor divulgar a sua paixão pelo Rio Tejo e dar testemunho das muitas horas de estudo sobre os 8 Km de rio que bordejam o território da Ortiga, as tradições e a azáfama dos pescadores. Luís Mota Figueira, Professor Coordenador do Politécnico de Tomar, diz na apresentação do livro que João de Matos Filipe “ iluminou uma parcela muito significativa das artes da pesca tradicional, porque integra as provas, os testemunhos, as evidências e a sua reflexão profissional, como que elaborando um fresco sobre as artes do rio, cuja composição e estética acabam por resultar da naturalidade com que esboça, pinta e nos explica a realidade interpretada”.
O livro é ainda uma homenagem ao povo da Ortiga e ao mesmo tempo um preito ao rio da nossa infância que, para muitos de nós, é sinónimo de lazer, trabalho e prosperidade. Quem cruza o rio Tejo todos os dias, como é o nosso caso, e aproveita os tempos livres para fruir do seu leito e das suas margens, só pode estar agradecido ao historiador local que nos devolve em conhecimento e sabedoria o nosso “Rio de Emoções” parafraseando Carlos Cupeto que assina o prefácio.
JAE
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