A vida política entre quatro paredes no Largo do Rato ou na rua de S. Caetano (à Lapa), sedes do PS e PSD, respectivamente, está cheia de memórias tão dramáticas quanto hilariantes. Basta pensar em Mário Soares com os seus 90 anos de vida e em Sá Carneiro que já desapareceu há 34 anos para imaginarmos quantas centenas de figurinhas e figurões já circularam pelas salas cor-de-rosa e laranja destes dois prédios de Lisboa.
Um dia ouvi contar que Marcelo Rebelo de Sousa mijava da janela do seu gabinete para o quintal quando não podia desperdiçar tempo. Uns meses antes da eleição de António Costa ouvi António José Seguro no Largo do Rato falando em família. Começou assim o seu discurso: “o que vos vou dizer hoje e aqui é tudo mentira. Estou a gozar com as minhas próprias palavras pois já ninguém acredita nos políticos quando eles usam da palavra”. A sala ficou em silêncio e só se via, e ouvia, o sorriso amarelo de António José Seguro.
Não sou a pessoa certa para contar histórias da vida partidária. No dia em que morreu Sá Carneiro a minha memória ainda estava cheia de histórias da vida interna no PCP mas já passaram tantos anos que só de as lembrar fico parecido com o jarreta do Jerónimo de Sousa.
Tenho um amigo que um dia destes, já no tempo de António Costa, falou com o Largo do Rato onde agora também trabalha a Maria da Luz Rosinha que pertence ao núcleo duro de Costa. A história que ele me contou é muito parecida com aquelas que lembro do tempo da pedra lascada.
Os partidos políticos são máquinas de gente que apodrece debaixo das mesas, nos fundos das jarras, morrem e reproduzem-se como os bichos da madeira, os ratos dos sótãos e das garagens.
De vez em quando tentam reinventar-se, como é agora o caso do PS com António Costa e Maria da Luz Rosinha que só pode estar em missão de serviço. Mas a maioria silenciosa fica lá dentro a minar, a manter o emprego, a cuidar da vidinha, a vigiar e a alimentar o sistema para que a vida deles nunca deixe de ser essa coisa podre e miserável que assenta na mentira e nas mal feitorias. JAE
quinta-feira, 26 de março de 2015
quinta-feira, 19 de março de 2015
Encher os Jardins da Liberdade
Não conheço a maioria dos engenheiros e arquitectos das câmaras municipais da nossa região mas tenho má opinião sobre o trabalho de muitos deles. Nunca digeri a azia que me provocam as últimas obras no Largo do Seminário, em Santarém. Nem imagino quem foram os engenheiros que assinaram as obras naquele espaço e não aceito que os políticos que as aprovaram sejam gente de bom juízo. O chão é demasiado escorregadio quando chove e no Verão atravessar o Largo do Seminário é uma experiência parecida com a de fazermos uma sauna ou banho turco na via pública.
Nos últimos anos fizeram-se obras em algumas ruas de Santarém que merecem o mesmo reparo critico pela falta de engenheiros inteligentes para pensarem esta cidade. As obras em causa têm passeios da largura daqueles que ladeiam os Campos Elísios, em Paris, já que os passeios da Avenida da Liberdade, em Lisboa, são bem mais pequenos e ajustados à realidade. Os engenheiros burros desenham as estradas à medida de dois carros e depois o resto que se lixe. Não importa se há estabelecimentos comerciais à beira da estrada e se esse comércio é abastecido por via terrestre com a necessidade evidente de os carros estacionarem em cima do passeio. O que torna ainda mais burras estas engenharias é o traço contínuo nas estradas que é para ser desrespeitado a cada vez que um carro estaciona ou pára em frente de um estabelecimento comercial para descarregar ou carregar mercadoria.
Como é evidente quem mora e trabalha em cidades como Santarém tem quase sempre a polícia à perna pois cada obra de engenharia parece feita em parceria com os interesses das autoridades que nos multam e ofendem a cada multa.
Não conheço a maioria dos engenheiros que desenharam as últimas obras em Santarém nem quero saber dos políticos que as aprovaram mas gostava de ver na presidência da câmara alguém que, num futuro a médio prazo, tivesse coragem política para desfazer as ovo-rotundas e abrisse as estradas para os carros circularem já que sem carros uma cidade não ganha pessoas para encher os Jardins da Liberdade.
Eu sei que criticar é fácil. E que este exercício pode ser injusto para muita gente que merece o título de engenheiro de obras. Mas a realidade está aí para quem tiver olhos na cara. Os engenheiros parece que desconhecem as necessidades dos cidadãos e, pior do que isso, parece que nunca viram como crescem e evoluem as cidades modelos da Europa. JAE
Nos últimos anos fizeram-se obras em algumas ruas de Santarém que merecem o mesmo reparo critico pela falta de engenheiros inteligentes para pensarem esta cidade. As obras em causa têm passeios da largura daqueles que ladeiam os Campos Elísios, em Paris, já que os passeios da Avenida da Liberdade, em Lisboa, são bem mais pequenos e ajustados à realidade. Os engenheiros burros desenham as estradas à medida de dois carros e depois o resto que se lixe. Não importa se há estabelecimentos comerciais à beira da estrada e se esse comércio é abastecido por via terrestre com a necessidade evidente de os carros estacionarem em cima do passeio. O que torna ainda mais burras estas engenharias é o traço contínuo nas estradas que é para ser desrespeitado a cada vez que um carro estaciona ou pára em frente de um estabelecimento comercial para descarregar ou carregar mercadoria.
Como é evidente quem mora e trabalha em cidades como Santarém tem quase sempre a polícia à perna pois cada obra de engenharia parece feita em parceria com os interesses das autoridades que nos multam e ofendem a cada multa.
Não conheço a maioria dos engenheiros que desenharam as últimas obras em Santarém nem quero saber dos políticos que as aprovaram mas gostava de ver na presidência da câmara alguém que, num futuro a médio prazo, tivesse coragem política para desfazer as ovo-rotundas e abrisse as estradas para os carros circularem já que sem carros uma cidade não ganha pessoas para encher os Jardins da Liberdade.
Eu sei que criticar é fácil. E que este exercício pode ser injusto para muita gente que merece o título de engenheiro de obras. Mas a realidade está aí para quem tiver olhos na cara. Os engenheiros parece que desconhecem as necessidades dos cidadãos e, pior do que isso, parece que nunca viram como crescem e evoluem as cidades modelos da Europa. JAE
quinta-feira, 12 de março de 2015
A importância de se chamar Pombeiro
O rio Tejo, que é o rio da minha aldeia, continua a ser para mim um ilustre desconhecido. Não só nunca o desci desde a nascente até à foz como não conheço o rio para lá de Abrantes. E embora seja um apaixonado pelas suas margens e pelas suas marachas nunca encontrei com quem partilhar as minhas alegrias e preocupações.
Curiosamente, no dia em que almocei pela primeira vez com três desses militantes apaixonados pelo rio, que o conhecem como eu conheço os portos da minha área de residência, ouvi no rádio do carro, a caminho do almoço, a presidente da Câmara de Abrantes numa entrevista na Antena 1 anunciando ao mundo que a Associação de Municípios do Médio Tejo estava a protestar contra aquilo que para os autarcas do Médio Tejo é um verdadeiro atentado ao rio e aos interesses das populações.
Foi um tempo de antena e pêras. Cheguei à doca de Lisboa onde tinha o almoço marcado e ainda fiquei no carro para não perder nada da conversa. Depois liguei para
O MIRANTE e dei a novidade. Ninguém tinha ouvido ou sabido de qualquer comunicado. A conversa era séria e Maria do Céu Albuquerque não é gaga a falar de coisas sérias. Dizia, entre muitas verdades cruéis, que o rio em tempo de Inverno nem sequer leva um caudal ecologicamente sustentável. Coisa que nós vemos todos os dias e que nos angustia mas que não podemos resolver nem tão pouco sabemos como mostrar indignação.
É evidente que fiz do assunto tema de conversa ao almoço. E comecei logo ali a perguntar quem é que na Associação de Municípios do Médio Tejo acha que resolve o assunto da falta de água no rio sem o envolvimento das populações e das suas associações, dos seus órgãos de comunicação social e dos políticos de toda uma região que não só do Médio Tejo.
Passaram mais de cinco semanas sobre esta tomada de posição dos autarcas. Tempo suficiente para que o assunto já tenha sido esquecido depois de um comunicado muito bem elaborado cujo original deve estar num arquivo do chefe de gabinete de Passos Coelho e o respectivo duplicado na pasta de arquivo do Senhor Pombeiro, que é uma espécie de manga de alpaca da Associação de Municípios do Médio Tejo.
Por último: conheço o documento por me ter sido enviado por um amigo de Lisboa e foi com essa informação que fizemos notícia na altura. Pelo que percebo nem o site da associação fez notícia ou publicou o comunicado. JAE
Curiosamente, no dia em que almocei pela primeira vez com três desses militantes apaixonados pelo rio, que o conhecem como eu conheço os portos da minha área de residência, ouvi no rádio do carro, a caminho do almoço, a presidente da Câmara de Abrantes numa entrevista na Antena 1 anunciando ao mundo que a Associação de Municípios do Médio Tejo estava a protestar contra aquilo que para os autarcas do Médio Tejo é um verdadeiro atentado ao rio e aos interesses das populações.
Foi um tempo de antena e pêras. Cheguei à doca de Lisboa onde tinha o almoço marcado e ainda fiquei no carro para não perder nada da conversa. Depois liguei para
O MIRANTE e dei a novidade. Ninguém tinha ouvido ou sabido de qualquer comunicado. A conversa era séria e Maria do Céu Albuquerque não é gaga a falar de coisas sérias. Dizia, entre muitas verdades cruéis, que o rio em tempo de Inverno nem sequer leva um caudal ecologicamente sustentável. Coisa que nós vemos todos os dias e que nos angustia mas que não podemos resolver nem tão pouco sabemos como mostrar indignação.
É evidente que fiz do assunto tema de conversa ao almoço. E comecei logo ali a perguntar quem é que na Associação de Municípios do Médio Tejo acha que resolve o assunto da falta de água no rio sem o envolvimento das populações e das suas associações, dos seus órgãos de comunicação social e dos políticos de toda uma região que não só do Médio Tejo.
Passaram mais de cinco semanas sobre esta tomada de posição dos autarcas. Tempo suficiente para que o assunto já tenha sido esquecido depois de um comunicado muito bem elaborado cujo original deve estar num arquivo do chefe de gabinete de Passos Coelho e o respectivo duplicado na pasta de arquivo do Senhor Pombeiro, que é uma espécie de manga de alpaca da Associação de Municípios do Médio Tejo.
Por último: conheço o documento por me ter sido enviado por um amigo de Lisboa e foi com essa informação que fizemos notícia na altura. Pelo que percebo nem o site da associação fez notícia ou publicou o comunicado. JAE
quinta-feira, 5 de março de 2015
Lídia Jorge é uma descamisada
Há escritores que me fascinam. Lídia Jorge é um deles. Gosto da autora de O Dia dos Prodígios pela originalidade da sua escrita e pela coerência da sua voz. É dos grandes escritores portugueses vivos que não aceita fretes dos jornais ou das revistas para dizer banalidades como esses escritores da moda analfabetos que devem a venda dos seus livros à propaganda enganadora. No dia em que a autora de O Vale da Paixão esteve em Vila Franca de Xira andei por outros caminhos onde me cruzei com a última edição da Colóquio Letras onde Lídia Jorge fala em entrevista com a jornalista Ana Marques Gastão. Fica aqui um resumo de uma conversa no papel que a meio da tarde me encheu a alma.
“Sinto esperança no colectivo, que nunca me é abstracto. Nesse aspecto pertenço ao grupo dos prostitutos da esperança ( : ) Acho que sou uma pessoa de combate.
Existem degraus imprecisos onde todos os homens se sentam. Por alguma coisa escolhi para epígrafe de um dos meu livros os versos de Dylan Thomas que falam dessa simbiose entre o carrasco e o inocente. “ Eu não tenho jeito para dizer ao homem enforcado/ Como da minha argila é feito o lodo do carrasco”.
Eu não aspiro à paz. Ela não é deste mundo. A menos que nos refiramos ao intervalo de sossego que acontece entre o desassossego. Aí sim, a paz transforma-se num armistício prolongado (:).
É preciso dizer que a felicidade existe. Experimenta-se e é objetiva. Mas não é narrável. Já a infelicidade é narrável (:).
Sei que sou uma caçadora atrás de uma presa inalcançável (:) Quando inicio um livro sou uma descamisada.
Os anos passam, a sociedade moderniza-se, e no entanto continua a existir um país indolente e amedrontado, que não se expressa. Um país que não encontra os gestos certos para acenar na rua, nem a voz própria para dizer o que lhe vai na alma (:) não deixa de ser extraordinário como somos ainda uma sociedade que voltou a ter um medo salazarista quando culturalmente nos tornamos cosmopolitas e modernos (:).
Quero entregar ao leitor o melhor texto possível. Como uma prenda fechada. Por isso ele não me é indiferente, nem está ausente, mas não cedo, nem concedo, porque o respeito. Quero que o nosso jogo seja limpo (:) se não nos entendemos paciência (:) Entre escritor e leitor o texto não é negociável”. JAE
“Sinto esperança no colectivo, que nunca me é abstracto. Nesse aspecto pertenço ao grupo dos prostitutos da esperança ( : ) Acho que sou uma pessoa de combate.
Existem degraus imprecisos onde todos os homens se sentam. Por alguma coisa escolhi para epígrafe de um dos meu livros os versos de Dylan Thomas que falam dessa simbiose entre o carrasco e o inocente. “ Eu não tenho jeito para dizer ao homem enforcado/ Como da minha argila é feito o lodo do carrasco”.
Eu não aspiro à paz. Ela não é deste mundo. A menos que nos refiramos ao intervalo de sossego que acontece entre o desassossego. Aí sim, a paz transforma-se num armistício prolongado (:).
É preciso dizer que a felicidade existe. Experimenta-se e é objetiva. Mas não é narrável. Já a infelicidade é narrável (:).
Sei que sou uma caçadora atrás de uma presa inalcançável (:) Quando inicio um livro sou uma descamisada.
Os anos passam, a sociedade moderniza-se, e no entanto continua a existir um país indolente e amedrontado, que não se expressa. Um país que não encontra os gestos certos para acenar na rua, nem a voz própria para dizer o que lhe vai na alma (:) não deixa de ser extraordinário como somos ainda uma sociedade que voltou a ter um medo salazarista quando culturalmente nos tornamos cosmopolitas e modernos (:).
Quero entregar ao leitor o melhor texto possível. Como uma prenda fechada. Por isso ele não me é indiferente, nem está ausente, mas não cedo, nem concedo, porque o respeito. Quero que o nosso jogo seja limpo (:) se não nos entendemos paciência (:) Entre escritor e leitor o texto não é negociável”. JAE
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
Uma grande maioria
Num texto de apresentação de um livro chamado “O Bordel das Musas”, João Cutileiro conta que “há pouco mais de 150 anos, na Praça do Giraldo, havia autos de fé e execuções com palco e tudo. Ainda hoje se pode ver que do palco dos Condes de Murça sai uma plataforma de ferro adossada à igreja de Santo Antão (onde meus pais casaram) para que os então nobres e os seus amigos tivessem regalias de primeiro balcão: )”. Só em 1957 um editor francês conseguiu publicar, sem correr o risco de ser preso, os primeiros livros do Marquês de Sade, esse sublime energúmeno que recentemente fez furor em Paris numa exposição no Museu d´Orsay 200 anos depois da sua morte. A instituição da Inquisição persistiu até ao início do século XIX. O filósofo alemão Theodor Adorno perguntou, em 1949, se era possível escrever poesia depois de Auschwitz.
Tomei algumas notas que ficaram esquecidas no computador e recupero-as agora para dizer como Ortega y Gasset nas suas Meditações do Quixote: Cada dia menos me interessa sentenciar; a ser juiz das coisas vou preferindo ser seu amante”.
Falar é fácil. Escrever é um pouco mais difícil mas facilita-se falando para o gravador e depois mandando transcrever. Quem anda na faina como nós sabe que ainda há muita gente por aí com comportamentos e mentalidades dos tempos de antanho. Os banqueiros aproveitam-se dos políticos, e os políticos aproveitam-se dos banqueiros, e o mundo continua a ser sustentado por uma grande maioria que trabalha todos os dias de sol a sol. A minoria, esses excelsos energúmenos que regra geral são banqueiros ou donos de grandes empresas, são o próprio sol e só descansam quando a noite cai e engolem a lua. JAE
Tomei algumas notas que ficaram esquecidas no computador e recupero-as agora para dizer como Ortega y Gasset nas suas Meditações do Quixote: Cada dia menos me interessa sentenciar; a ser juiz das coisas vou preferindo ser seu amante”.
Falar é fácil. Escrever é um pouco mais difícil mas facilita-se falando para o gravador e depois mandando transcrever. Quem anda na faina como nós sabe que ainda há muita gente por aí com comportamentos e mentalidades dos tempos de antanho. Os banqueiros aproveitam-se dos políticos, e os políticos aproveitam-se dos banqueiros, e o mundo continua a ser sustentado por uma grande maioria que trabalha todos os dias de sol a sol. A minoria, esses excelsos energúmenos que regra geral são banqueiros ou donos de grandes empresas, são o próprio sol e só descansam quando a noite cai e engolem a lua. JAE
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015
O encontro do século em Vila Franca de Xira
À mesma hora em que se discutia matemática e poesia no Museu do Neo-Realismo, com Eugénio Lisboa, o toureiro José Júlio era alvo de uma festa de homenagem no dia dos seus 80 anos.
Uma boa parte dos homens dos touros são iletrados. Sabem quem foi Ernest Hemingway e Pablo Picasso, por razões especiais, mas não pescam nada sobre poesia ou literatura ou pintura, para falarmos apenas das artes mais convencionais. Se falarmos de alguns empresários, repito, de alguns empresários, iletrados é uma palavra elogiosa. De verdade são uns pequenos trafulhas.
Teria sido uma boa “tourada” juntar as duas iniciativas e enquanto Eugénio Lisboa falava da escola pitagórica, da beleza dos tetrassílabos nos versos de João de Deus ou de Henrique Segurado, dos matemáticos poetas como Paul Valery ou Mira Fernandes, ao mesmo tempo José Júlio pudesse falar dos seus passes de mágico com o capote, da forma como o sangue circula nas veias de um toureiro quando olha de peito descoberto os cornos afiados de um toiro, da arte de mostrar no chão da arena aquilo que um poeta ou matemático deixa escrito no papel.
Juntar Eugénio Lisboa e José Júlio a meio da tarde, em Vila Franca de Xira, para falarem de poesia, matemática e touradas, seria certamente o encontro e o acontecimento do século à beira Tejo em terras lusas. Certamente que seria uma grande honra para todos menos para aqueles que vivem com a alma e os olhos no passado e passam a vida na gosma, de língua afiada a pedirem estátuas e nomes de ruas aos políticos, quando não é o caso de exigirem que a cidade acorde todos os dias de manhã curvada e rendida aos génios da má-língua. JAE
Comentário à noticia: http://semanal.omirante.pt/index.asp?idEdicao=690&id=106809&idSeccao=12323&Action=noticia#.VNosPvmsXh4
Uma boa parte dos homens dos touros são iletrados. Sabem quem foi Ernest Hemingway e Pablo Picasso, por razões especiais, mas não pescam nada sobre poesia ou literatura ou pintura, para falarmos apenas das artes mais convencionais. Se falarmos de alguns empresários, repito, de alguns empresários, iletrados é uma palavra elogiosa. De verdade são uns pequenos trafulhas.
Teria sido uma boa “tourada” juntar as duas iniciativas e enquanto Eugénio Lisboa falava da escola pitagórica, da beleza dos tetrassílabos nos versos de João de Deus ou de Henrique Segurado, dos matemáticos poetas como Paul Valery ou Mira Fernandes, ao mesmo tempo José Júlio pudesse falar dos seus passes de mágico com o capote, da forma como o sangue circula nas veias de um toureiro quando olha de peito descoberto os cornos afiados de um toiro, da arte de mostrar no chão da arena aquilo que um poeta ou matemático deixa escrito no papel.
Juntar Eugénio Lisboa e José Júlio a meio da tarde, em Vila Franca de Xira, para falarem de poesia, matemática e touradas, seria certamente o encontro e o acontecimento do século à beira Tejo em terras lusas. Certamente que seria uma grande honra para todos menos para aqueles que vivem com a alma e os olhos no passado e passam a vida na gosma, de língua afiada a pedirem estátuas e nomes de ruas aos políticos, quando não é o caso de exigirem que a cidade acorde todos os dias de manhã curvada e rendida aos génios da má-língua. JAE
Comentário à noticia: http://semanal.omirante.pt/index.asp?idEdicao=690&id=106809&idSeccao=12323&Action=noticia#.VNosPvmsXh4
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
As Flores do Mal
O autor do manifesto "Contra a Poesia" não conheceu Fernando Pessoa nem o seu drama em vida. Se tivesse conhecido talvez não tivesse publicado este manifesto sem ter escrito, nem que fosse em rodapé, que Fernando Pessoa foi o único grande poeta moderno que escreveu uma Obra maior que a sua vida e a sua vaidade, e que fez questão de a deixar quase inteira numa arca, como se deixam as antiguidades aos herdeiros sabujos. "Pertenço a um género de Portugueses/Que depois de estar a Índia descoberta/Ficaram sem trabalho" ( : ). Eis Pessoa no seu melhor, num livro concebido como Obra de Arte, desde logo por ostentar uma capa em madeira, nada a fingir, trabalho bem feito que irá ter seguidores, certamente, e trabalho gráfico incomum na paginação de poemas e textos que nas palavras de Manuel S. Fonseca, o editor, "bebem absinto e vinho louro e tanto fumam ópio como deitam fora um cigarro meio fumado". Ao lermos textos tão importantes da Obra de Pessoa e dos seus heterónimos, em que "o poeta se funde fisicamente com as suas drogas" lembrámos-nos de Witold Gombrowicz e da sua critica à poesia moderna considerando-a como "extracto farmacêutico". Aparentemente não há nada que ligue estas duas realidades assim como as 51 fotos de Pedro Norton que ilustram o livro não têm qualquer ligação aos textos do poeta que preferia "pensar em fumar ópio a fumá-lo/e achava mais seu olhar para o absinto a beber que bebê-lo..."No entanto as fotos falam com os poemas e dos poemas da mesma forma que Witold Gombrowicz assume logo no início do seu manifesto que "quase ninguém gosta de versos e o mundo dos versos é fictício e falso". Pedro Norton fotografa para dizer também que a fotografia é uma arte que precisa de ser reinventada. A sola do sapato em confronto com o movimento desfocado dos pés, o fundo branco da maioria das fotos e a quase ausência de rostos, fazem deste conjunto de fotografias um bom exercício para que outro Witold Gombrowicz venha dizer que já nada era como no tempo em que Gerard Castelo-Lopes ficava dez minutos a focar a sua objectiva antes de disparar a velha Kodak e nascer uma foto quase perfeita. O meu fotógrafo de arte de eleição é Fernando Lemos que, ao contrário de Fernando Pessoa, viajou para o outro lado do mundo e não ficou em Lisboa "a fumar a vida". Aliás, Fernando Lemos tem uma Obra gigante, mais na escultura e na pintura que na fotografia, feita a partir do Brasil para onde se mudou em 1953. Recordá-lo enquanto folheamos o livro e lemos Fernando Pessoa, e tentamos decifrar as fotos de Pedro Norton, é uma boa forma de homenagear Fernando Lemos que tem uma Obra ímpar que merecia mais divulgação em Portugal. Com estas fotos Pedro Norton estende a sua arte à nossa admiração, como nas suas fotos alguém estende o braço para espetar a seringa, ou cospe no lavatório, ou dá voltas na cama preso pelos cabelos. Todas as fotos são metáforas de um passado recente que lembram heranças esquecidas, desventuras, tormentos, solidão e pecado; "Um mundo de Absinto, ópio, tabaco e outros fumos" de que tratam os poemas de Pessoa e que, ao fim de várias leituras do livro, acabamos por achar que as fotos também falam e impõem a cada novo olhar. Há ainda algo de um cigarro meio fumado que se deita fora a meio do caminho, na forma como algumas fotos nos marcam a memória de uma religião que está presente na nossa vida desde a infância, e que nos acompanha pela vida fora, neste caso mais como forma de praticarmos o sacrilégio que a oração. As Flores do Mal são uma edição Guerra & Paz com uma tiragem de 1500 exemplares numerados em algarismos árabes e eu tenho o número 65 oferta de um amigo. Texto de Joaquim Emídio publicado na edição online de O MIRANTE, na secção Livros que São Vidas, disponível através do link: http://www.omirante.pt/index.asp?idEdicao=54&id=78484&idSeccao=560&Action=noticia#.VKu4kHvLHGA |
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