sexta-feira, 3 de maio de 2019

Manual de pintura e caligrafia ribatejana

Uma viagem escrita por Florença para lembrar as tontices dos nossos autarcas e a dimensão da cabeça de alguns deles a começar na Azambuja e a acabar em Santarém.

Há um mês voltei a Florença quase 25 anos depois da minha primeira vez. Marquei a viagem no dia a seguir à noite em que acabei de reler, também muitos anos depois, o livro “Manual de Pintura e Caligrafia”, de José Saramago, uma ficção que se lê como autobiografia, o meu género literário preferido (o livro fala de Florença, como é evidente, ou de outra forma não estava aqui referenciado. E tem uma frase “assassina” sobre Santarém que um dia destes trago aqui noutra crónica). Florença é a cidade mais bem cuidada do mundo; talvez a mais bem governada; talvez a mais bem frequentada; porventura a mais extraordinária de todas as cidades do mundo por razões que me dispenso de comentar e que desafio cada leitor a descobrir.
Não há alcatrão nas ruas de Florença, cuja dimensão é maior cem vezes que a vila de Azambuja; as ruas são todas empedradas, da mesma pedra que parece ter mais de quinhentos anos como têm as pedras dos palácios.
Fico com insónias quando leio as palavras dos nossos autarcas a dizerem que vão acabar com os empedrados nos centros das suas terras para facilitarem o escoamento das águas e mais o raio que os parta, já que a ignorância e o desrespeito pelos valores da cultura e da civilização, em muito do território português, é literalmente militar.
Todos os dias da minha vida nos últimos 20 anos, mando o antigo presidente da Câmara de Santarém, Rui Barreiro, para um sítio que só eu sei, porque a renovação do denominado Largo do Seminário, onde circulo com frequência, é um aborto, tal como Rui Barreiro sempre foi politicamente a gerir a cidade enquanto mandou alguma coisa.
Já escrevi noutras alturas, em que me apetecia escrever com mais pimenta, que uma grande maioria dos nossos autarcas não viaja e quando viajam não vão em trabalho. Vão e regressam com a mesma mala de cartão; voam e aterram com a mesma cara de parvos, que também é a minha, com que saem do aeroporto de Lisboa ou do Porto. Poucos, muitos poucos, neste país de Ruis Barreiros, que trabalham uma vida inteira para o Estado e mais para quem só Deus sabe, têm noção do serviço público que lhes é confiado quando os partidos políticos os escolhem para receberem os votos dos eleitores. As cabeças de muitos deles estão ao serviço dos interesses próprios e não da comunidade. São presidentes de câmara e não estão presidentes de câmara. São assim uns analfabetos políticos, como é aquele jovem da Chamusca, que se chama Paulo Queimado, que se acha muito importante, principalmente nos dias em que consegue apertar o cinto das calças sem grande esforço.
Volto à Câmara da Azambuja e ao projecto de alcatroar o coração da vila da Azambuja. Se bem conheço Luís Sousa, o actual presidente da câmara, ele não vai levar até ao fim esta ideia maluca. Não é velho o suficiente para mandar às urtigas o amor à sua terra e não acredito que esteja a querer arranjar trabalho a uma empresa que vende alcatrão só porque ela precisa de pagar as prestações do Processo Especial de Revitalização. JAE

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Uma classe de impostores


Temos os maiores impostores à frente de organismos públicos e privados que mandam na nossa vida e dispõem de nós como se fossemos peças de um jogo que eles jogam e arbitram ao mesmo tempo.

Portugal tem uma classe política que se descompõe nas televisões, o palco de todas as mentiras, mas que no essencial está unida em volta dos mesmos interesses. Devemos ser o único país da Europa que está sempre em campanha eleitoral. Os partidos enchem o espaço urbano de publicidade e provocam uma poluição que contraria todas as regras do bom senso. Os partidos chamados de esquerda, como é o caso do Partido Comunista e do Bloco, chegam a abusar de forma pornográfica.

Este fim-de-semana assisti em Lisboa a um seminário intitulado Sete Vidas Sete Debates sobre o futuro do jornalismo, e ouvi o mesmo de sempre: “A internet chegou para cumprir um sonho da humanidade mas também para acabar com o jornalismo tal como o conhecemos desde sempre”.
Os jornalistas que aceitam falar do assunto não sabem mais do que sabiam há uma década quando tudo começou a desmoronar-se. Por isso, quando se juntam é para adivinharmos qual deles tem o pior prognóstico; qual deles está mais perto de adivinhar em que braços desgraçados vamos cair.
Uma coisa dou como certa: os jornalistas do reino que nos orientam nestas opiniões continuam a funcionar como os políticos da Assembleia da República; eles só concebem o jornalismo a partir das secretárias das redacções em Lisboa, dos directos e dos dias de trabalho sem tréguas atrás dos políticos que governam a República, ainda que as novidades sejam sempre as mesmas, embora com outras roupagens.
Os jornais dão cada vez menos notícias e publicam cada vez mais opinião. Esta constatação generalizada não merece autocrítica nem discussão que ponha uma plateia em sentido. O Correio da Manhã, o mais temido de todos os jornais em Portugal, começa a ser elogiado, não porque escorre sangue das suas páginas mas porque é o único que cumpre a função de informar. Os outros reconhecem as suas limitações mas não dizem porque não publicam notícias e contentam-se com a opinião folclórica dos colunistas de serviço que, regra geral, são políticos, ex-políticos ou administradores/professores/gestores de empresas públicas.


“O sucesso é fruto de 10% de inspiração e 90% de transpiração”. A frase é de Thomas Edison e tem várias versões. Esta é aquela que eu gosto mais. Relembro-a para fecho desta crónica porque acho uma frase importante para modelo de vida e de trabalho; a verdade é que somos muitos a ignorar ou a inverter a máxima e o seu espírito. A maioria de nós espera tudo da inspiração e da sorte e qualquer coisinha do resultado da transpiração.
É por sermos um povo capado, incapaz de nos unirmos em órgãos de cidadania, medrosos até às canelas, que temos os maiores impostores à frente de organismos públicos e privados, que mandam na nossa vida e dispõem de nós como se fossemos peças de um jogo que eles jogam e arbitram ao mesmo tempo. JAE

quinta-feira, 28 de março de 2019

Terras sem Sombra e a Ordem dos Jornalistas

Esta semana acompanhei uma edição do Terras Sem Sombra que foi até Olivença; Registo aqui a morte de pessoas notáveis da minha terra e dou conta que defendo uma Ordem para a classe dos jornalistas


Sou a favor de uma Ordem para a classe dos jornalistas porque entendo que a auto-regulação que hoje se pratica jamais será um caminho para uma grande maioria daqueles que trabalham na profissão. Escrevo sobre o assunto porque entendo que os jornalistas portugueses deveriam ser mais cuidadosos na publicação de fotos sobre incêndios e terrorismo, entre outros actos criminosos que sacrificam vidas humanas por questões de luta política e religiosa. Todos sabemos que os crimes desta natureza são praticados por gente convencida que com os seus actos ficam para a posteridade e são exemplo a seguir. Condená-los ao anonimato era um serviço público que todos os órgãos de comunicação social tinham obrigação de prestar seguindo os velhos valores do jornalismo. 


Esta semana morreram duas figuras conhecidas da minha terra com quem conversei muitas vezes e aprendi muitas coisas. Falo da morte de Manuel José Moedas, um homem que ainda tirava o chapéu da cabeça para cumprimentar as pessoas na rua, e de Jaime Grilo, um pescador a quem ouvi contar histórias bonitas sobre a arte da pesca mas também episódios que confirmam que o leito do rio é perigoso para quem o conhece quanto mais para patos bravos que se afoitam nas suas águas.
Aproveito o espaço para lembrar a morte recente de outras pessoas importantes da minha terra que não foram notícia neste jornal mas que poderiam ter sido: Augusto Lourenço, vulgo Augusto da Bicicleta, Álvaro Agnelo, vulgo Álvaro Chané, Joaquim Arraiolos, vulgo Joaquim Burrico, Ercília Santos, vulgo Ercília dos bolos, Madalena Cardoso, vulgo Madalena do Chico Polícia, Luís Faustino, vulgo Luís Lameira, Manuel Matias, vulgo Manuel Calcanhar, Eduarda Ferreira, vulgo Eduarda Melrinho, Inácio Pestana, Domicília Barreiras e Joaquim Rafael Guita, entre muitos outros que agora não me lembro e que certamente também mereciam ser notícia no jornal da terra.


O Terras sem Sombra é um festival de cultura no Alentejo que já vai na sua 15ª edição. Tem como principal objectivo partilhar o legado cultural e natural do Alentejo, assim como dar a conhecer o que há de mais fascinante, dos centros históricos às áreas rurais, da vida selvagem às etnografias locais. A ambição da organização é projectar a região, nacional e internacionalmente, como um território de identidade ímpar que se afirma como destino de arte e natureza.
No passado fim de semana acompanhei em Olivença uma das actividades do Festival deste ano que só termina em Junho. Oportunidade para conhecer um território cheio de memórias e reencontrar o José António Falcão e a Sara grandes responsáveis pelo Festival e pelo êxito de cada iniciativa que mobiliza artistas, políticos, agentes culturais e população. JAE

quinta-feira, 14 de março de 2019

Carta para Francisco Pinto Balsemão e Paulo Fernandes*

O associativismo na comunicação social está pela hora da morte. Um recado para dois dos patrões mais influentes da imprensa portuguesa.

O MIRANTE faz parte da Associação Portuguesa de Imprensa (API) que defende os interesses das empresas de comunicação social em Portugal. No princípio como simples associado e, mais tarde, como membro da sua direcção. Infelizmente não temos suficiente voto na matéria para denunciarmos no seio da associação, e em nome dela, a falta de políticas dos sucessivos governos no apoio ao serviço público que a maioria dos jornais praticam.
Trago o assunto a público porque acho que vale pena reflectir sobre o papel da comunicação social que todos os dias condiciona a nossa forma de olhar o mundo.
Os patrões da imprensa em Portugal, na sua grande maioria, somam interesses na vida pública e política, e acima de tudo na vida empresarial, que nada têm a ver com a comunicação social. E longe vai o tempo em que alguns dos melhores deles se uniam nas diferenças para lutarem pelos mesmos interesses. Quando era assim, os mais pequenos, como sempre foi o caso da imprensa regional, só tinham a ganhar.
A verdade é que as televisões, e a febre pelo controlo do espaço televisivo, acabou com o associativismo entre patrões. Ninguém quer pensar nos negócios de tostões quando os das televisões são de milhões.
Os jornais estão reduzidos a tiragens miseráveis com a excepção do “Expresso”, do “Correio da Manhã” e do “Jornal de Notícias”, embora as quedas nas tiragens sejam de meter medo ao susto. 
Cerca de 70% das notícias dos jornais digitais são acessadas através de telemóveis. Esta forma de ler notícias não tem futuro. Não são os leitores de notícias nos telemóveis que justificam uma redacção de 20, 50 ou 100 jornalistas. Nem pode ser essa a política dos empresários dos Media por muito que alguns jornais trabalhem apenas para elegerem o próximo Presidente da República. O jornalismo precisa do papel como os textos precisam das ilustrações. O jornalismo precisa de jornalistas motivados para contarem histórias de página inteira como o mundo precisa de memória muito para além daquela que se apaga cada vez que se desliga um aparelho digital.
OS CTT acabaram recentemente com o Correio Azul na distribuição dos jornais (à taxa normal). O serviço era uma conquista de uma anterior negociação com os Correios. A associação que representa os patrões dos jornais está demasiado ocupada com problemas de sobrevivência que põem tudo em causa. A ideia que fica é que já ninguém acredita no associativismo para defender os mesmos interesses. Mesmo que, com esta forma de trabalhar, ponham em perigo o espaço mediático português e a qualidade da democracia.  JAE

* São os dois nomes maiores da imprensa em Portugal e responsáveis pelo melhor e pelo pior que se passa no associativismo na comunicação social.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Mudar de terra e de casa para não morrer do coração

Mudei a minha residência permanente para longe da Chamusca e dos seus dirigentes analfabetos e grosseiros. Assim posso poupar o meu coração às intempéries das emoções negativas.

Sou amigo de duas figuras gradas da vida cultural portuguesa com quem aprendi e aprendo ainda a arte de viver e trabalhar: falo de António Valdemar e Francisco Pinto Balsemão. Cito-os porque ouvi aos dois, muito recentemente, a confissão de que estão a escrever as suas memórias, à pressa, com as dificuldades decorrentes de quem nunca tomou notas, perdeu o norte a muitos documentos, e não teve em conta que a memória não precisa que lhe dêem indicações para mandar para o lixo tudo o que não interessa. São duas pessoas com mais de oitenta anos de idade que, no entanto, mantêm um ritmo de trabalho e de intervenção na vida pública que só podemos admirar e elogiar.
Não tenho nem nunca vou ter prestígio público para escrever memórias e as minhas recordações o mais que podem interessar é aos meus filhos. Por isso faço questão de não guardar muita coisa do que tenho para dizer, ou escrever, às pessoas do meu tempo.
Nos últimos meses mudei a minha residência permanente, assim como a gestão da maioria dos meus interesses, para outras paragens longe da santa terrinha. A Chamusca está entregue a duas pessoas (a duas, pelo menos) anafalbetas politicamente e demasiado grosseiras no trato para eu aturar nem que seja por acidente.
Estou a viver uma experiência única proporcionada em parte por pessoas que tratam os jornalistas por filhos de puta, oferecem pares de estalos como se tivessem sido educados numa cavalariça, e atacam à navalhada os pneus dos carros pela calada da noite como fazem os gatunos das lojas nomeadamente os de ourivesarias.
Não troco o meu coração ribatejano pelo lisboeta, carioca, gaúcho ou madrileno, só para citar alguns lugares da terra onde podia viver sem nunca esquecer ou deixar esmorecer o amor às raízes. Só pelo amor à terra dou conta destas mudanças, embora o que eu quero realmente deixar aqui em letra de forma, para memória futura, é que mudei a residência permanente para outras paragens porque assim preservo melhor o amor à terra de nascença e às suas gentes. Como não tenho vocação para a militância política, nem projectos para mudar de profissão, recuso-me a combater politicamente os analfabetos que governam a câmara da Chamusca. Assim, longe da vista longe do coração;  a cada dia que passa sinto-me mais confortável na minha nova terra e o meu coração já agradeceu o tanto que o poupei às intempéries das emoções negativas.  JAE

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Os 30 anos da Nersant e o papel de José Eduardo Carvalho

Nersant comemora 30 anos e vai homenagear pessoas e empresas que contribuíram para a importância da associação.


A Nersant vai comemorar 30 anos em Maio. A direcção presidida por Salomé Rafael já anunciou um programa de comemorações digno do estatuto da associação.
Estão agendadas homenagens a muitas empresas e individualidades que ao longo destes 30 anos ajudaram a Nersant a transformar-se numa associação única, líder em todas as frentes na relação com o tecido empresarial e não só. O melhor elogio que se pode fazer à Nersant é comparando-a com outras, com o mesmo estatuto, que trabalham noutras regiões do país. Na grande maioria dos casos o seu trabalho é infinitamente melhor, com grandes vantagens para os empresários e para o tecido económico da região ribatejana.
No texto em que anuncia as comemorações são referidos alguns projectos e processos que a Nersant liderou, estruturantes para a região e muito importantes para o desenvolvimento do território, nomeadamente a distribuição do gás natural, com a criação da Tagusgás, a criação da Garval – Sociedade de Garantia Mútua do Vale do Tejo, a implantação de Parques de Negócios, potenciando a atracção de investimento externo, e a criação da Escola Profissional do Vale do Tejo, a única escola profissional do país com uma estrutura accionista, constituída por 28 entidades, da qual fazem parte algumas das maiores empresas da região.
Todos os projectos citados e referenciados como exemplares são do tempo da presidência de José Eduardo Carvalho, actual presidente da AIP (Associação industrial Portuguesa) que continua a trabalhar no associativismo empresarial a nível nacional com a mesma entrega de há duas décadas, quando trabalhava para deixar a sua marca no associativismo da Nersant.
José Eduardo Carvalho é certamente uma das figuras de maior relevo da nossa região. Tem convivido e trabalhado com muitos ministros, secretários de Estado e outras figuras gradas do país, e deve-se a ele uma boa parte do prestígio institucional que a região tem vindo a ganhar no país e junto dos decisores.
A homenagem da direcção da Nersant é bem vinda mas sabe a pouco. José Eduardo Carvalho merecia ser reconhecido pela associação num acto único, diferenciado, que a exemplo do seu trabalho fosse também uma iniciativa que fizesse jus à sua importância na vida da associação, assim como à sua continuada e bem sucedida actividade como dirigente associativo.
Maria Salomé Rafael devia esquecer a boa relação pessoal, e o facto de ter pertencido a algumas direcções presididas por JEC, e de ter sido apoiada por ele para ficar na presidência da associação, e pensar apenas no quanto JEC fez e faz a diferença, comparado com outros que merecem a homenagem mas que depois do trabalho feito foram à sua vidinha. José Eduardo Carvalho foi presidente da NERSANT durante 17 anos (1994-2011) e ainda hoje trabalha todos os dias para o prestigio do associativismo, embora a outro nível e com outras responsabilidades. A sua ligação à região e o seu empenho diário, numa luta que é de todos, mereciam um olhar mais atento dos seus pares. JAE

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

O autarca medroso da Chamusca e os outros

Paulo Queimado é presidente de uma associação de municípios ribatejanos que tem medo dos projectos com financiamento europeu.


Os autarcas da região ribatejana entregaram ao presidente da Câmara da Chamusca, Paulo Queimado, a presidência de uma associação que entre outras competências deve gerir a Colónia Balnear da Nazaré. Há muito tempo que ouço falar do assunto porque havia para aquele espaço um projecto de cerca de 18 milhões de euros, financiado em grande parte pela Comunidade Europeia que, entretanto, de ano para ano, foi sendo reduzido e sem qualquer financiamento. Resumindo: Paulo Queimado ficou tão assustado com o lugar que lhe ofereceram, e as responsabilidades que assumiu, que reduziu um projecto de investimento de muitos milhões a coisa nenhuma. Quem conhece Paulo Queimado sabe que ele é fraca roupa; mas os autarcas seus parceiros de associação, que lhe entregaram tamanha responsabilidade, dormem descansados e limitam-se a rir do inábil político da Chamusca? E não sentem vergonha do fracasso? É assim que querem meter a região no mapa? Estamos bem entregues sim senhores.
Não há português que se preze que não ache que anda a ser escutado pela Polícia Judiciaria (PJ). Desde políticos a militares, jornalistas e médicos, empregados públicos e taxistas, todos as pessoas que se acham importantes, e que falam com pessoas importantes, têm medo e gostam de manifestar o receio de que alguém os anda a escutar. Portugal tem 10 milhões de habitantes. Pelas minhas contas, e tendo em conta o número de pessoas que ouço falarem do assunto, pelo menos 5 milhões de portugueses podem estar sob escuta da PJ. Barulhos de fundo e vozes a sobreporem-se durante as chamadas são as interferências mais frequentes que nos fazem crer que estamos a ser escutados. Só quem não conhece a realidade do país, e da PJ, pode divagar e estragar o sono com este assunto.
O exercício da profissão ensinou-me a perceber certas realidades e a dominar certos receios. Confesso que nunca me senti escutado mas já fui protagonista de algumas situações caricatas; uma delas com um amigo de longa data que me ensinou, com conhecimento de causa, como eu podia saber se o meu aparelho estava sob escuta. O dele estava, segundo tentou provar. Soube mais tarde, por outro amigo igualmente sabichão, que aquela consulta ao meu aparelho teria servido para ele accionar uma escuta em proveito próprio. Ainda hoje acho graça à possibilidade de ser escutado; só posso fazer pessoas felizes porque os meus telefonemas regra geral são bem dispostos e bem servidos de palavras chulas.
Um polícia de quem fui amigo disse-me um dia que sabia a que horas eu chegava ao jornal e a que horas saía. A intenção parecia ser afectuosa mas mais tarde vim a saber que só podia ser maldosa. Ainda hoje me rio das intenções porque eu sempre dormi com armas sofisticadas à cabeceira da cama que são os meus sonhos azuis. Um outro amigo ensinou-me que a maneira mais engenhosa de saber os segredos de alguém não é escutando os telefonemas mas vasculhando o caixote do lixo no final do dia de trabalho. O segredo é encontrar quem tenha acesso ao caixote do lixo. Contou-me outras ainda mais engenhosas, que mais tarde encontrei nos livros de escritores como John le Carré, o autor de A Casa da Rússia. Foram ensinamentos que me ajudaram a conhecer as pessoas e nunca serviram ou hão-de servir para trabalhar. JAE