quinta-feira, 21 de maio de 2026

Guerra civil em Vila Franca de Xira por causa do estacionamento pago

Se há concelho do Ribatejo que não está em crise de população e habitacional é Vila Franca de Xira. No entanto, vem aí uma proposta para implementar o estacionamento pago em urbanizações onde nada foi planeado. Os moradores podem ter um calvário pela frente.

O concelho de Abrantes é conhecido por ser um bastião socialista, e em certos mandatos por erros de gestão que vão ficar na História. O caso mais grave foi o negócio com o “Barão Vermelho” que devia ser estudado nas universidades e, acima de tudo, nas formações que os partidos fazem com as juventudes partidárias. O que se passou em Abrantes, no tempo de Nelson Carvalho, não lembrava ao diabo, e dessas políticas irresponsáveis, que não foram devidamente penalizadas, nem são ainda hoje, é que nasceu e cresceu esta onda de revolta que alimenta o partido Chega. Veremos se os partidos tradicionais têm capacidade para se renovarem e impedirem este crescimento do Chega que, embora tenha alguns dirigentes bem-intencionados, e competentes, é no geral um ninho de ressabiados que saíram dos partidos tradicionais, de onde foram corridos.

Fui a Abrantes para dar o exemplo da política da cidade para a questão do estacionamento. Das cidades com Centro Histórico importante, Abrantes parece-me 

a que tem a política mais acertada na questão do estacionamento. Trago o assunto a este espaço porque há quase uma guerra civil em Vila Franca de Xira sobre a possibilidade de o concelho se tornar um inferno para os moradores. A autarquia prepara-se para implementar parquímetros em zonas super urbanizadas, onde não foram construídos silos para estacionamento automóvel e onde os moradores, para poderem fazer a sua vida, têm mesmo que usar carro próprio.

Não é normal que num concelho onde a habitação cresce em altura a um ritmo frenético, como acontece na Quinta da Piedade, por exemplo, a gestão não se faça também ao nível do estacionamento. Se vierem só os parquímetros, como parece inevitável, e não surgirem os silos e bolsas de estacionamento a preços simbólicos para residentes, vai haver muita gente a sentir-se enganada e a perguntar para que servem os gabinetes de planeamento das autarquias, e que interesses é que defendem os técnicos ao serviço de algumas câmaras municipais. É um assunto que merece uma discussão ampla e urgente. E não estamos só a falar da Póvoa de Santa Iria, os erros do passado estendem-se a Alverca e outras localidades do concelho onde o betão cresceu muito e não houve planeamento.  

Vejamos também o caso de Santarém. O parque de estacionamento que surgiu das obras no Jardim da Liberdade foi uma negociata que hoje, passados 20 anos, está no seguinte ponto: quem for jantar a um restaurante da cidade e se descuidar para lá das 22 horas, já não consegue recuperar o carro senão no outro dia pela manhã. Ora isto faz algum sentido? Faz. Pelas piores razões. Mas não sou eu que vou explicar.

Na Chamusca fez-se recentemente uma reabilitação urbana que deixa muito a desejar, mas a vila é pequena e os erros ali são como os erros graves dos médicos: a terra fá-los desaparecer e esquecer com o tempo. No Cartaxo já não é assim; a regeneração urbana feita há mais de duas décadas deixou marcas profundas na cidade, e ainda hoje se pagam caros alguns erros dessas opções. O parque de estacionamento no centro da cidade esteve duas décadas sem poder ser tarifado por não cumprir algumas imposições legais necessárias. O que se está a passar com a circular urbana dá pano para mangas.

Volto a Vila Franca de Xira: se não houver bom senso admito que a guerra civil possa ser feita com armas de papelão e balas de papel, mas há muitas razões para pensar que o número de pessoas que vão sofrer este constrangimento pode reflectir-se nos votos das próximas eleições. JAE .

quinta-feira, 14 de maio de 2026

João Joaquim Isidro dos Reis: um breve retrato do bisneto do benemérito que deu nome e ajudou a construir a Ponte da Chamusca

“Sinto os ombros pesados, Joaquim António”, confessa com familiaridade João Joaquim Isidro dos Reis, tratando o jornalista como sempre tratou desde que nos conhecemos; “Detesto quando não estou à altura das coisas”. Uma entrevista publicada no interior desta edição, com um ribatejano que tem uma ganadaria, faz a gestão de uma quinta centenária que já conheceu melhores dias, e que não esconde o orgulho de ter dois filhos que estão prontos a fazer melhor do que ele fez da herança que lhe coube em sorte. Depois do que sobrou da entrevista, não tinha melhor escolha para o tema desta crónica que coincide com a semana da Ascensão, que marca a vida comunitária de meio Ribatejo.

João Joaquim Isidro dos Reis é o patriarca de quinta geração de uma família que faz parte importante da História da Chamusca. Faz 69 anos nos próximos dias de Junho, tem dois filhos de quem se orgulha, e uma história de vida muito diferente do seu bisavô, de quem herdou o nome, que é o grande responsável pela construção da centenária Ponte da Chamusca. O MIRANTE marcou encontro na sua quinta no Pinheiro Grande, que perdeu a beleza de outros tempos, mas mantém o essencial, ou seja, a casa de família, os cerca de trezentos hectares onde se criam touros bravos, e um espírito que é próprio dos lugares que muitas vezes só sabemos que existem pelos livros. E nada mais fácil de provar o que se escreve se tivéssemos espaço, ou a finalidade deste texto fosse fazer a heráldica da família: nas paredes da casa estão todos os retratos de todos os homens e mulheres que atravessaram os últimos séculos, assim como outros retratos, ou réplicas, que contam em imagens o que terá sido a vida antes da fundação da República, já que o pretexto para esta conversa é a Ponte da Chamusca, inaugurada um ano antes da queda da Monarquia. Talvez por isso nunca foi inaugurada oficialmente, já que o rei D. Manuel II, “O Desventurado”, foi o último e provavelmente o rei mais infeliz da monarquia portuguesa.

João Joaquim Isidro dos Reis fala do seu passado com orgulho mas sem soberba ou tiques de marialvismo. João não se lembra do pai em casa, e a sua mãe, Maria Aurora Isidro dos Reis, viveu 91 anos. Faleceu em 2011 e era uma senhora acarinhada pela população da Chamusca como muitas poucas figuras da burguesia terão sido ao longo de todos os séculos, até aos nossos dias. Mesmo com a ajuda do marido, de quem se separou quando o João tinha quatro anos, governou a sua casa agrícola. Grande parte da conversa com João Joaquim Isidro dos Reis foi sobre a vida de trabalho e o peso da herança de uma família que era das mais respeitadas devido aos créditos deixados pelo bisavô, de quem João herdou o nome.

A certa altura da conversa João Joaquim Isidro dos Reis pede-me que resuma a conversa ao feito do seu bisavô, diz que tem pena de não ter tanto êxito na vida como tiveram os seus descendentes, mas antes disso já tínhamos conversado sobre alguns episódios que aconteceram depois da revolução do 25 de Abril, que não deixaram boas recordações. O maior exemplo, e que merece maior destaque, são as tragédias dos fogos. Antes a família tirava cerca de 19 mil arrobas de cortiça da propriedade, hoje tira cerca de 3 mil. Mesmo assim é uma receita importante. Imagine-se o que seria se os fogos, a grande parte de origem criminosa, não estivessem a destruir o país, como todos sabemos e reconhecemos embora ninguém ligue à desgraça. “Sinto os ombros pesados, Joaquim António”, confessa com familiaridade tratando o jornalista como sempre tratou desde que nos conhecemos, “detesto quando não estou à altura das coisas”.  

A Chamusca foi outro dos temas mais falados. João diz que ama a Chamusca, que gostava de ter feito mais pela terra, que tem pena que a Chamusca tenha regredido tanto, que, como comunidade, a terra está muito mais pobre. Mas a conversa não foi nunca lastimosa: “O que nos une a todos da minha família, e são muitos, é o amor pela Chamusca. Eu posso dizer que sou um Chamusquenho, tenho o coração mais na charneca que no campo”.

Um dos maiores orgulhos do bisneto de João Joaquim Isidro dos Reis, que herdou o seu nome, é a ganadaria que refundou e registou em 2011, mais por amor à terra que por bairrismo, confessa, deixando para trás questões de invejas e incómodos que sempre existiram e vão existir enquanto houver pessoas tristes e malformadas.

Importante nesta conversa: João Joaquim Isidro dos Reis não falou de um único nome de quem tivesse que dizer mal ou sequer criticar. Agora que revejo as notas, e que releio a desgravação da conversa, confirmo e não deixo de registar: João Joaquim Isidro dos Reis é mesmo um ser humano incomum, apesar da vida nem sempre lhe ter corrido bem, de a desgraça dos fogos lhe ter roubado uma boa parte da herança, de algumas maldades que lhe fizeram, este bisneto do fundador da velha Ponte da Chamusca afirma com convicção que já lhe faltou menos tempo para acabar com as despesas dos juros nos bancos, e tirar do prego algumas das jóias de família que servem para equilibrar as contas e sonhar com uma vida mais desafogada financeiramente. JAE.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Quem não viaja não tem ilusões

“O mundo não seria o mesmo sem o desejo de viajar”. Há menos de duas horas viajava na cadeira onde me sento quase todos os dias da semana, solitário, em frente ao computador, mas no meio de uma sala com muita gente onde a palavra é prata e o silêncio é ouro. Hoje viajei sentado, mas ainda sinto no corpo e no espírito o reencontro com Ítaca que me ficou da última viagem em que cruzei oceanos e mergulhei nas suas águas.

“O mundo não seria o mesmo sem o desejo de viajar”. Roubo esta frase de um livro que tenho sempre à mão que se intitula “Teoria da Viagem” e que me serve hoje de apoio para me entusiasmar a escrever mais uma crónica. Há menos de duas horas viajava na cadeira onde me sento quase todos os dias da semana, solitário, em frente ao computador, mas no meio de uma sala com muita gente onde a palavra é prata e o silêncio é ouro.

Hoje viajei sentado, mas ainda sinto no corpo e no espírito o reencontro com Ítaca que me ficou da última viagem em que cruzei oceanos e mergulhei nas suas águas.

Lembro-me de me preparar para a partida como o viajante que faz o exercício de se tornar nómada para cultivar a errância e a vadiagem. Não era a primeira vez que me preparava com o mesmo espírito, e certamente não será a última. Regresso sempre com a certeza que até os verdadeiros nómadas recorrem a uma espécie de sedentarismo, aprendendo a orientar-se pelas estrelas, linhas e trilhos traçados pelos animais, regressando muitas vezes a lugares que encontram pelo caminho para praticarem os seus hábitos e rituais na arte de ocupar territórios.

Desta vez cheguei doente, os dois últimos dias de viagem foram penosos, por isso experimentei, como nunca, a satisfação de regressar à toca, à segurança de um tecto, um domicílio, depositando armas e bagagens onde sei que não correm perigo; aqui voltei a ter a minha biblioteca, os meus papéis de arquivo, o lar com o fogo aceso onde me defendo do planeta em guerra, e me permitiu reencontrar o estado de espírito das pessoas que dantes voltavam às cavernas depois de se terem aventurado no meio de uma natureza imprevisível que, em muitos casos, representa vários perigos.

A leitura de Michel Onfray consola-me nos primeiros dias em que me interrogo sobre as melhores e piores recordações da viagem, os encontros amargos e doces, a tensão sensual da viagem, mas também a hora do vómito, acima de tudo a urgência que sempre sentimos em responder a todas as questões que se instalaram no corpo e na alma. Escreve o autor que todos os grandes viajantes regressam ao porto, ao ancoradouro, depois das aventuras, e dá o exemplo dos vikings e de viajantes famosos e impenitentes como Bruce Chatwin, entre muitos outros. Voltar é decidir não permanecer, quando chegamos, as nossas raízes voltam a ter significado, nesses dias a seguir à chegada encontramos o equilíbrio da árvore, que no meu caso é o sobreiro.

Dos livros que levei para a viagem não abri nenhum. Li outros que comprei pelo caminho. E o computador é um milagre para quem gosta de trocar a orientação que se procura nas estrelas pelas mil diferentes alternativas que o computador nos oferece. Mas memorizei o que tinha lido nas vésperas da viagem num livro de João Bigotte Chorão, que na sua “Galeria de Retratos” tem um texto sobre Camões escrito como hoje já não se escreve em português nem sobre os heróis portugueses. E outro sobre o Padre António Vieira, que é um desafio para os grandes escritores, como a brasileira Ana Miranda, a autora de “Boca do Inferno” e “Musa Praguejadora”, dois livros únicos na literatura em língua portuguesa, em falta em Portugal, porque os novos escritores preferem aprender a escrever com os autores ingleses e americanos; é mais fácil copiá-los e imitá-los até à náusea sem que a anemia literária seja tão evidente.

Recorde-se, para quem não quer ter o trabalho de consultar a IA, que o Padre António Vieira nos idos de mil seiscentos e troca o passo já viajava para o centro do mundo, em Roma, mas não conhecia menos o Sertão e os rios brasileiros, assim como o oceano Atlântico que tantas vezes atravessou com risco de assaltos, tempestades e naufrágios.

João Bigotte Chorão, num desses retratos, a que volto muitas vezes, desafia mesmo um escritor de génio a escrever sobre o Padre António Vieira, igualmente genial e a merecer que o ressuscitem como personagem de um romance simultaneamente realista e fantástico, enquadrado na sua época e projectado para o futuro, homem do seu tempo e de todas as idades. JAE