quinta-feira, 18 de junho de 2026

Santarém vai ter um parque temático em que o futebol é rei

O executivo de João Leite está a surpreender tudo e todos. Depois do falhanço na conquista do aeroporto, eis que pode ter saído a lotaria a um território que se livrou da poluição dos aviões para conquistar outros projectos mais amigos do ambiente e igualmente prometedores para o ataque à desertificação do interior. 


A campanha falhada do aeroporto internacional de Lisboa para Santarém deixou marcas. Sei isso desde há muito tempo e pude confirmá-lo nestes últimos dias depois da sessão de apresentação pública de um projecto para um parque temático dedicado ao futebol. Amigos e meia dúzia de conhecidos trocaram mensagens comigo perguntando qual a minha opinião sobre o projecto, e se eu acredito que pode ir em frente. Não é normal receber tantas mensagens, mas compreendo que os números divulgados façam desconfiar todos os que ainda não esqueceram a derrota do aeroporto.

É claro que estamos a escrever sobre realidades bem diferentes; um parque temático ao nível do que se anunciou agora para Santarém existe por todo o mundo. Só em Espanha há vários, e alguns muito frequentados por portugueses. Eu próprio já visitei alguns quando tinha vagar para ser pai e os meus filhos ainda precisavam de mim para se divertirem. No caso do parque temático Viva Mundo, tudo leva a crer que o projecto só ficará pelo caminho se houver alguma pandemia. Há muito tempo que não se juntava uma plateia tão ilustre na velha cidade onde viveu e morreu Pedro Álvares Cabral. Não só as personalidades da cidade como gente ligada aos negócios, nomeadamente a este tipo de actividade económica. Quem esteve na apresentação, como foi o meu caso, não ficou com dúvidas; o projecto é aparentemente muito sério, envolve gente com dinheiro e é orientado por quem não está habituado a fazer má figura.

João Leite, o anfitrião, tem vivido um ano de mandato que ultrapassa a milhas tudo aquilo que eram os grandes momentos dos últimos trinta anos vividos em comunidade na cidade a que Almeida Garret chamou “um livro de pedra”.

Não lhe fazemos favor nenhum escrevendo que será o político deste século na gestão da autarquia escalabitana. O número de figuras públicas que reuniu no Convento de S. Francisco faz acreditar que tem a cidade e o concelho com ele.

Até hoje, depois de Ladislau Teles Botas e José Miguel Noras, a capital do distrito tem vivido mais do foguetório que do bodo da festa. João Leite está a fazer aquilo que todos acham que tinha que ser feito, mas ninguém até agora teve músculo e cérebro para fazer. O aeroporto nos terrenos do Campo de Tiro de Benavente pode ter sido uma bênção para Santarém e para todo o Ribatejo. Veremos se há males que vêm por bem, e se nos livraram da poluição dos aviões para nos ajudarem a manter um território com projectos alternativos amigos do ambiente, e nem por isso menos importantes no ataque à desertificação do interior do território.

Ainda a tempo: respondi a todas as mensagens que me enviaram que acredito no projecto que está a ser anunciado para Santarém, embora à boca pequena tenha ouvido Carlos Carreiras admitir que se não se correr contra o tempo muita coisa pode correr mal e obrigar a esforços redobrados com as devidas consequências. Mas sinais de pessimismo foi coisa que não vi ou ouvi em nenhum dos protagonistas deste evento. JAE.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Somos um desastre a viver em comunidade: o caso de Alenquer

O que se está a passar em algumas localidades de Alenquer é a prova provada do desastre que somos a viver em comunidade. Mas o caso de Passinha e Casais Novos é só um exemplo: há outros muito recentes que também já fizeram capa neste jornal.


Ainda ontem começou o mês de Junho e eu já comi figos e ameixas das árvores que plantei há cerca de vinte anos, na semana precisa em que colhi as últimas laranjas tardias que nem imagino como chegaram maduras ao início do mês mais bonito do calendário. O que a Natureza nos oferece é o milagre diário que alimenta as nossas vidas, e viver diariamente dedicando algum tempo a sujar as mãos na terra, ou a cuidar da mente lendo um livro, é o melhor que nos pode acontecer. Deixo aqui este pequeno apontamento escrito no início de uma semana cheia de compromissos com os outros, todos aqueles que me empurraram para esta vida de jornalista e editor, e o mais a que sou obrigado, uns por bem, outros por mal, o que vai dar ao mesmo; já que tenho que trabalhar para justificar o pão que como, então que seja sempre por uma boa causa, que é trabalhar para a comunidade, como trabalho para os pardais que são sempre os primeiros a provarem a fruta madura.

Portugal é um país de gente boa; posso comprovar isso quase todos os dias em que comunico com pessoas que não conheço, algumas que me escrevem ou telefonam indefesas pedindo ajuda, outras 

chamando-me os nomes que nem o diabo sabe que existem. Num e noutro caso aceito tudo, ou quase tudo, de forma pacífica. Mas não deixo de fazer o meu juízo sobre o país e a região onde nasci e vivo a maior parte dos meus dias: somos um desastre como comunidade. Aqui no Ribatejo e no Algarve. Em Leiria, em Évora e no Porto, que de Lisboa nem se fala.

O que se está a passar em algumas localidades de Alenquer é a prova provada do desastre que somos a viver em comunidade. Mas o caso de Passinha e Casais Novos é só um exemplo: há outros muito recentes que também já fizeram capa neste jornal e que não vou desenterrar para não me dispersar. Cabe na cabeça de alguém que uma empresa de transportes mude de instalações para um lugar onde não há estradas em condições, e em mais de cinco anos a comunidade não se tenha unido o suficiente para obrigar os políticos a pagarem pelos erros dos que decidem o planeamento do território? Que comunidade é que querem os autarcas nos seus concelhos se eles próprios se demitem das suas responsabilidades? Há perdão para os políticos que se deixam enganar pelos engenheiros dos gabinetes dos municípios, e os tribunais não sejam lestos a fazer justiça quando o que está em causa é a saúde pública de dezenas de moradores que tiveram o azar de construírem a sua casa de família para onde, surpreendentemente, se terá mudado o diabo e a sua família?

Alenquer é um concelho com prestígio; a proximidade a Lisboa tem feito crescer o concelho a olhos vistos; com a área metropolitana de Lisboa cada vez mais entupida, mais gente a trabalhar na capital compra casa no concelho de Alenquer. Se o aumento da população e o investimento na qualidade de vida no concelho não são suficientes para que os políticos dêem a cara pelos interesses da comunidade, o que é que podemos esperar para o futuro? Não é justo que os interesses de uma empresa estejam acima dos de uma população. E não se aceitam desculpas, pelo menos neste caso, quando todos sabemos que o erro foi detectado muito a tempo de ser remediado. JAE.