Esta semana O MIRANTE conta como a Nersant voltou a levar sopa do tribunal e recuperamos, de duas edições passadas, uma notícia que actualiza a negociata entre o executivo da câmara da Chamusca e uma empresa do antigo presidente da assembleia municipal.
“Jornalismo é publicar o que alguém não quer que seja publicado: todo o resto é publicidade”. A frase é de George Orwell e o jornal El País usa-a no final das suas comunicações com os leitores que subscrevem a maior parte das suas newsletters (circulares). Milhões de leitores, como é o meu caso, assinam e recebem de forma gratuita as mais variadas matérias do jornal, que podem ser lidas apenas pela metade, uma vez que fomentam o interesse pelo jornal e convidam à formalização da assinatura. Recentemente, o El País reorientou sua estratégia de negócios de venda de assinaturas a preço de saldo (baixo custo), mesmo sendo um jornal com mais de meio milhão de assinaturas online e com uma política de abrir muitos conteúdos à maioria dos seus leitores.
Em Portugal os media estão numa crise profunda. A culpa, segundo Carlos Rodrigues, da empresa Media Livre, que me parece acertada, é mais da gestão que do jornalismo. Comparando o que se faz em Espanha com o que vemos em Portugal, bem podemos voltar aos tempos em que o governante do Partido Socialista, Alberto Arons de Carvalho, obrigou os jornais locais e regionais a praticarem um preço mínimo de assinatura entre outras maldades que só não estão enterradas porque ainda hoje condicionam todo o sector. Vinte anos depois, Arons de Carvalho briga em tribunal com o actual Governo porque acabou recentemente de sair, contrariado, do cargo de presidente do Conselho Geral Independente da RTP. Arons de Carvalho é ainda descrito como um especialista a comentar o futuro e a gestão da televisão pública. Para bom entendedor meia palavra basta. Em Portugal não se usam as coroas reais como em Inglaterra, mas em muitas situações somos uma verdadeira monarquia.
Trago o assunto aqui porque O MIRANTE, desde a sua fundação, sempre orientou o preço da assinatura para preços de baixo custo, já que sempre defendemos que quem tem que ajudar a pagar o jornal são mais os anunciantes e menos os leitores.
Volto à frase com que comecei esta crónica. Esta semana a Nersant volta a ser notícia porque o ex-presidente, António Pedroso Leal, que ficou a meio do caminho do seu mandato, queria batatinhas de um juiz do tribunal porque se considera ofendido por notícias do jornal. Levou sopa. Tanta sopa como a sopa que deu aos associados da Nersant a quem prometeu mundos e fundos para acabar a sair antes do tempo e depois de vender o património que outros dirigentes construíram. E ainda teve o descaramento de prometer publicamente dois milhões de euros para financiar a imprensa regional. Acabou por gastar zero dos dois milhões prometidos e teve que vender património para pagar ordenados e dívidas.
O mesmo com as negociatas entre a câmara da Chamusca e a empresa Garrido Artes Gráficas. Joaquim Garrido foi adversário político, e depois amigo de Paulo Queimado. Editou um livro de luxo em condições escandalosas que mereceram escrutínio. Só esperamos que a aparente ingenuidade que as duas maiores figuras da política autárquica da altura na Chamusca não se fiquem a rir das instituições que escrutinam este tipo de negócios. Como todos sabemos, há gente que nasceu com o cu virado para a lua e acha que toda a tolice merece o colo do perdão. “A ver vamos”, como diz o ditado popular. JAE.