sábado, 17 de novembro de 2018

José Saramago: um escritor de dimensão planetária que nasceu no Ribatejo

Vítor Guia não pode adiar mais a criação dos Caminhos de Saramago e José Veiga Maltez deve mostrar empenho na abertura diária do pólo da Fundação Saramago, na Azinhaga.


José Saramago morreu há mais de oito anos e no entanto está mais vivo do que nunca. Nas últimas semanas saíram para as livrarias quatro livros que testemunham a importância do seu legado e a excelência da sua Obra literária. “Cadernos de Lanzarote”, sexto e último volume, com textos de há 20 anos encontrados no seu computador por um estudioso da sua obra; “Rota de Vida”, uma biografia da autoria de Joaquim Vieira que é um autêntico tijolo (750 páginas), um livro que promete uma viagem à intimidade do autor de “Memorial do Convento”; “Por Saramago”, da jornalista Anabela Mota Ribeiro, um belo livro que reúne entrevistas e fotos da autoria de Estelle Valente; “Um país levantado em alegria”, de Ricardo Viel, que refaz o caminho da notícia do anúncio do Nobel, revelando episódios desconhecidos e dando a conhecer mensagens recebidas por José Saramago. O autor foi a pessoa a quem os jurados pediram ajuda para fazerem chegar a mensagem da atribuição do Nobel.
José Saramago é adorado em vários países do mundo; no Brasil e no México, só para citar duas grandes nações, há uma espécie de adoração pela figura e pela obra de José Saramago. Nada que se compare a Portugal onde os seus livros vendem, apesar de tudo, mas onde ainda hoje é vítima de inveja e desprezo que são, em grande parte, atribuídas à acção da Igreja que não gosta dos livros do escritor. A militância comunista também terá a sua parte.
José Saramago mudou-se de Lisboa para a Ilha de Lanzarote (Espanha) devido à censura que o Governo português resolveu fazer a um dos seus livros candidato a um prémio europeu. A figura inquisidora da altura era sub-secretário de Estado adjunto da pasta da Cultura. Um caso que vai ficar na História e que mostra de um lado o país progressista que nasceu com o 25 de Abril de 1974, e do outro o país salazarento representado por um indivíduo chamado Sousa Lara.
Vítor Guia, o presidente da Assembleia Municipal da Golegã, não pode perder tempo a criar o já anunciado projecto dos Caminhos de Saramago.
José Veiga Maltez, o presidente da Câmara da Golegã, deve acompanhar e incentivar a abertura diária do pólo da Fundação Saramago, na Azinhaga, para que o seu concelho beneficie, como merece, da dimensão planetária da figura do autor de “Jangada de Pedra”.
Uma última nota sem importância: José Saramago nasceu a 16 de Novembro data da fundação de O MIRANTE. JAE

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

A lembrança de Alberto Dines; um jornalista que foi um exemplo

Dizer mal é muito mais fácil que dizer bem. Somos todos muito valentes a dizer mal de tudo e de todos mas falta-nos a coragem para escrevermos a dizer bem. Numa viagem recente encontrei pelo caminho a notícia da morte de Alberto Dines, uma figura famosa do jornalismo em língua portuguesa que conheço desde a fundação de O MIRANTE e que, ao longo destes últimos 30 anos, fui homenageando dando a ler centenas de vezes algumas páginas do livro “O papel do jornal e a profissão de Jornalista” que é a verdadeira Bíblia da nossa profissão. Está lá tudo aquilo que precisamos de saber para nos orientarmos. No dia em que descobri este livro cresci meio metro. E nunca mais larguei as sábias palavras de Alberto Dines que, para além de grande jornalista, foi uma figura marcante da cultura brasileira; deve-se a ele a escrita de uma das melhores biografias sobre Stefan Zweig ( Morte no Paraíso) , e à sua iniciativa a fundação em Petrópolis da casa museu do escritor austríaco, autor de “O mundo de ontem”, um relato autobiográfico de uma vida e de um mundo que devia ser leitura obrigatória em todas as escolas.
Alberto Dines morreu a 22 de Maio com 86 anos. Apesar de ter vivido em Portugal durante sete anos, a trabalhar como jornalista e pesquisador ( é da sua autoria o livro Vínculos do fogo – António José da Silva, o Judeu, e outras histórias da Inquisição em Portugal e no Brasil), a sua morte passou completamente despercebida em Portugal. Só um jornal noticiou a sua morte num obituário de meia dúzia de linhas.
Alberto Dines foi autor de mais de 15 livros, jornalista durante mais de meio século, professor universitário, fundador do Observatório de Imprensa, impulsionador do Provedor dos Leitores nos jornais brasileiros, director de várias publicações, uma figura ímpar no jornalismo brasileiro que lhe rendeu justa homenagem na hora da sua morte.
Apesar de considerar que alguns dos conselhos, publicados no livro “O papel do jornal”, valem apenas como peças de museu, ficam aqui meia dúzia deles que provam exactamente o contrário: “Se estão todos olhando para o céu, dê uma olhadinha para o chão. Certamente encontrará assuntos que os competidores estão descurando”. “Não se agarre a posições hierárquicas. O jornalismo é uma das poucas actividades em que a criatividade e a inquietação só fazem bem, sobretudo aos chefes”.” Participe mas alheie-se. Só assim você terá dimensão e isenção”.” A grande regalia de um jornalista é poder dispensar as regalias”. “ Para fazer bom jornal é preciso matéria para três. Jornalismo é depuração e síntese”.” Há um quociente de humildade necessária à profissão. A busca de poder, opulência e importância é antagónica ao espirito jornalístico”. “Os leigos em geral adorariam ser jornalistas. Desde que não precisassem sair à rua à procura de informação, escreve-la rapidamente, trabalhar à noite, aos domingos e feriados”. “Tudo o que é difícil de ser composto é difícil de ser lido”. ”Vale mais ser um repórter feliz o resto da vida que um executivo bem pago e infeliz”. “Se você quer uma boa referência para a edição de amanhã veja com atenção a que você publicou hoje” ( : ) JAE

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

A tradição de pedir bolinhos e estender a mão à caridade

Estender as mãos à caridade, ou a favor de alguém, abala a nossa vida para sempre desde que saibamos aprender a lição. Se não soubermos de nada vale a experiência e o sentimento da vergonha.


Esta edição de O MIRANTE sai a 1 de Novembro, dia de comemorar o “Pão por Deus” que eu revi (vi) recentemente na internet a fazer pesquisa para um artigo de reportagem.
Se eu disser aos adolescentes de hoje que andei a pedir bolinhos, porta a porta, no dia de pedir “Pão por Deus”, eles riem-se porque acham graça mas não sabem nem percebem o que está por detrás desta tradição e o que ela representa na vida de uma criança.
Na altura éramos (quase) todos pobres. E pedir era uma necessidade, também uma graça, derivada de um estado de espírito que nos tornava mais humanos.
Estender as mãos à caridade não é para todos. Há quem prefira morrer de fome, ou matar-se, ou enlouquecer, e assim não ter que dar contas das suas fraquezas (ou da sua força a menos). Estender as mãos à caridade, ou a favor de alguém, abala a nossa vida para sempre desde que saibamos aprender a lição. Se não soubermos de nada vale a experiência e o sentimento da vergonha; o que se aprende não deixa marcas.
Alguns dos meus melhores mestres foram aqueles que me humilharam; em criança e já em adulto. Sempre aprendi mais no infortúnio do que na sorte (embora seja um sortudo); Levei uma vida inteira a sublimar o que em criança todos os dias repetia a caminho de casa, rua do Vale acima, depois de ver a televisão no café do Checa ou na sede do Sporting: nunca hei-de ser humilhado como foram os meus avós e muitos Homens do seu tempo. Claro que fui; e ainda sou; mas todos os dias trabalho e luto para que seja cada vez menos.
Lembro-me de ir de porta em porta pedir mas também me lembro do tempo, ainda de criança, em que deixei de ter coragem para o fazer. Não me perguntem o que sentia; só sei que não achava mal mas que não era para mim. Se eu quisesse comer broas, romãs, nozes e figos tinha que os merecer. Não sei se era assim que eu me explicava a mim mesmo; mas é assim que guardo a lembrança de me ter recusado pela primeira vez a pedir bolinhos no Dia de Todos os Santos. Não me lembro quantos anos tinha mas tenho a certeza que ainda usava calções e andava descalço com orgulho de ter umas botas em casa que me magoavam os pés.
JAE

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Os Jardins Suspensos do Campo da Feira em Santarém e o CNEMA

Enquanto se discute o futuro do campo da feira, que não tem futuro à vista, a câmara negoceia com o CNEMA a compra de um terreno por muitos milhões de euros.


Não me admira que Santarém tenha realizado uma assembleia municipal para discutir o futuro do campo da feira. Não conheço classe política mais fraquinha que a de Santarém.
A cidade está afogada em problemas; o principal é a falta de pessoas, que gera uma pobreza franciscana na economia dos vários negócios de porta aberta; Só se discute
o futuro do Campo Emílio Infante da Câmara porque não há coragem política para se discutir o que verdadeiramente interessa à cidade e ao concelho.
Há uma década vi no papel um projecto para o campo da feira que era assim como uma espécie de Jardins Suspensos da Babilónia. Ri-me mas levei a coisa a sério; não há dinheiro para abrir os museus, para fazer obras de manutenção nos monumentos, para investir nas margens do Tejo e ligar o rio à cidade, para tirar os autocarros do centro, sequer para alindar os espaços nobres da urbe, mas toda a gente que tem responsabilidade política em Santarém não dorme a pensar no que fazer do Campo Emílio Infante da Câmara. É triste mas é verdade. Ricardo Gonçalves, o timoneiro da política escalabitana, tem razões para ficar preocupado, rodeado como está de tão fraca gente.
As últimas notícias dão conta que a câmara municipal anda a negociar com o CNEMA a compra de um terreno para construir um complexo desportivo. Eu não sou bruxo mas ou muito me engano ou a autarquia prepara-se para dar a sorte grande à administração do CNEMA, que gere ao jeito da ditadura do proletariado um espaço que devia ser da cidade e de todos os agentes. Tudo o que eles nunca fizeram pela cidade e pela região, tudo o que eles nunca investiram em nome da cidade e da região, vai ter um prémio; não havendo hipóteses de lhes darem o dinheiro de mão beijada, sem passar pela contabilidade organizada do município, a autarquia vai comprar-lhes um terreno por muitos milhões de euros. Como se a cidade não tivesse terrenos ao preço da uva mijona para fazer Obra e concretizar com êxito a sua política de investimento na cultura e no desporto.
JAE

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

A Gazeta do Povo e o meu amigo Campos Valério

Nos últimos dias visitei uma das maiores empresas de comunicação social em língua portuguesa para perceber o que tinha mudado em duas décadas desde que a visitei pela primeira vez. Mudou tudo. O jornal deixou de se publicar diariamente no papel, sai ao domingo, e a aposta está toda no online. O sector comercial é uma sombra do que era há duas décadas. O retrato da empresa está irreconhecível comparado com o de há 20 anos. Saí da reunião com a Ana Amélia Filizola, na sede do Gazeta do Povo, em Curitiba, confirmando o que já sabia; tudo no Brasil ao nível da comunicação social é incomensuravelmente maior, e diferente, de Portugal. Por isso a lição, hoje como ontem, é sempre ao gosto do aluno.


Reencontrei mais uma vez o meu amigo António Campos Valério, um emigrante português em Curitiba há mais de sessenta anos. Tem uma história de vida que me comove. Voltamos a almoçar em família. O restaurante era perto de um antigo barracão onde há mais de meio século se alojavam os emigrantes portugueses em Curitiba. Ele não. O pai era construtor civil e tinha casa própria. Foi graças aos conhecimentos do pai que aos 16 anos entrou para uma empresa de automóveis só para fazer recados.
Poucos anos depois era vendedor e chefe de vendas. Há mais de vinte anos levou-me a dar uma volta ao mundo pelo Estado do Paraná e pelas cidades onde geria delegações da empresa. O fim da viagem foi em Foz de Iguaçu onde a luz do dia é azul devido à energia/magia das águas das cataratas.
António Campos Valério viu crescer Curitiba dos 160 mil habitantes para os dois milhões. Conversar com ele é abrir o livro da vida. É um homem de família, generoso, sábio, profundamente crente nos valores da amizade e da solidariedade. Jamais voltaria a viver em Portugal mas ama a terra e todos os dias sabe pela televisão o suficiente para matar saudades. Quase todos os anos atravessa o Atlântico mas, de costas ou de barriga, regressa sempre ao Mirante da Serra, em Curitiba, o bairro onde construiu a sua casa e onde criou as cinco filhas.
JAE

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

O médico Lopes Dias não falava de política, mas tinha opinião sobre as pessoas que faziam política

A morte do médico Henrique Lopes Dias, da Golegã, apanhou-me a ler um livro de memórias que fala da terra mãe, da respiração dos sentimentos do berço, da contemplação das diferentes nuvens em céus diversos do mundo que, no entanto, nos transportam sempre para a terra natal das palavras que dizemos e escrevemos, que guardam o nosso local de nascimento.
A Golegã podia ser a minha terra. Os lugares, os caminhos e as pessoas fazem parte importante do meu imaginário. Lopes Dias foi o médico da minha família até muito depois de se reformar. À noite, quase sempre depois do jantar, o seu consultório era o meu banco de urgências, para mim e para toda a família. Por causa de um internamento de um familiar no Hospital da Golegã atravessei o Dique dos Vinte no auge da maior cheia de sempre, no ano em que cedeu com a força da água. Tenho memória disso em casa porque o Francisco Cid estava lá com a máquina fotográfica.
Apesar de ser especialista em ouvidos, nariz e garganta, Lopes Dias fazia clínica geral. Não era um homem de muita conversa mas era afectuoso. Trabalhava todos os dias. Lembro-me de falar com ele sobre o stress do trabalho e ele confessar que fazia o que gostava. Por isso, dava consultas à noite depois de um dia normal de trabalho. Muitas vezes, eu era o único doente. Saltava da sala de televisão para o consultório só para me atender. Nessas alturas dialogava mais. Púnhamos a conversa em dia. Ele não falava de política, mas falava das pessoas da política. Guardo dele uma voz amiga e solidária, nas horas em que mais precisamos de alguém que nos faça esquecer que “viver é irreparável”, e que “é terrível ter o destino da onda anónima morta na praia. A citação literária vem a propósito, porque falávamos muito de literatura e de Miguel Torga em particular.
No mundo não há nada mais importante do que os médicos e os farmacêuticos das pequenas cidades (inspirado num verso de Mário Quintana e a recordar-me também da morte de Joaquim Cabeça, Joaquim Machado (farmacêuticos) e Armando Cumbre e Artur Barbosa (médicos)). 
JAE

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Os empresários são os mágicos da economia

O MIRANTE voltou a entregar prémios às empresas da região. Ocasião para recordar que também há empresários à força que procuram apenas o lucro e que o melhor do nosso excelentíssimo território é a auto-estrada.

O MIRANTE entrega todos os anos os prémios Galardão Empresa do Ano em conjunto com a NERSANT que escolhemos como parceiro para esta iniciativa.
Não é por acaso que nos ligamos às empresas e tivemos a ideia do prémio. Os empresários são os mágicos da nossa economia. Sem eles não teríamos território; e se tivéssemos era para ver passar os carros e os comboios (de barcos já nem vale a pena falar).
Tenho admiração por alguns empresários da região que já nomeei algumas vezes nos meus textos e que tenciono voltar a nomear. Acho muito mais fácil governar uma região com empresários do que com políticos. Mas precisamos das duas actividades; e que todos os protagonistas sejam gente boa, com estatuto, Homens de palavra e de solidariedade.
A nossa região é um bom exemplo de empreendedorismo. Mas é bom que não esqueçamos que há muitos empresários à força, nascidos de um certo oportunismo de mercado, empresários que querem ficar ricos rapidamente, que não têm qualquer consideração pelo tecido social da terra onde têm as empresas.
Gente que ganha muito dinheiro a gerir as empresas da região mas que não sabe nada da nossa geografia nem do tecido social; que ignora o território para mais tranquilamente poder poluir os rios, e as terras férteis do bairro, do campo e da charneca; gente que vive em Cascais ou no Estoril e dá graças a Deus por termos uma excelente auto-estrada num excelentíssimo território.
E ainda temos os empresários falhados, que só são empresários para darem cabo da vida deles e dos outros; que vão para a insolvência como quem vai dar um mergulho na piscina.
O MIRANTE não tem, nem nunca teve, um posicionamento negativo quanto ao papel dos empresários e à sua importância no desenvolvimento do país e da região. Por isso temos um caderno de economia dentro da edição; e publicamos todas as semanas dezenas de notícias sobre os nossos empresários e as nossas empresas.
É com eles, com a maioria deles, que queremos continuar a mostrar trabalho e também, nem que seja uma vez por ano, a entregar prémios.
JAE