quinta-feira, 27 de agosto de 2026

O papel da comunicação social na denúncia de um Estado que umas vezes é pai outras enteado

As notícias de proximidade como aquelas que nós escrevemos exigem gente no terreno, uma porta aberta para a comunidade, gente que do outro lado não produz informação só para sustentar poderes políticos e económicos. Raramente é notícia um apelo nacional para acudir a uma pessoa que não tem o apoio do Estado para se salvar de uma doença, por não ter como muitos outros o apoio do Estado que para uns é pai e para outros enteado.

Há um ditado que diz que quem confessa a verdade não merece castigo. Vem o mesmo a propósito desta crónica semanal ainda durar depois de tantos anos a teclar. Confesso que a crónica resiste por impulso do trabalho diário. Há semanas em que é escrita no calor das conversas entre pares. Não tenho qualquer vontade de me substituir aos jornalistas de O MIRANTE depois de tantos anos na labuta. Não perdi o prazer de escrever para o jornal, de fazer parte da equipa, mas não tenho tempo para fazer tudo o que gosto; por isso algumas coisas têm que ficar pelo caminho. A crónica deixou de ser prioridade na minha agenda, mas resiste. Esta semana é um bom exemplo para escrever, com conhecimento de causa, que ninguém arruma as botas enquanto tiver pernas para andar.

Ao longo de muitas décadas, O MIRANTE tem ajudado muita gente em situação dramática de doença. Lembro-me de alguns casos em que fomos importantes na compra de cadeiras de rodas, de pagamento de cirurgias, de internamentos em hospitais privados, de ajudas financeiras a pessoas desesperadas com a doença de filhos, netos e outros familiares. Tenho de memória os telefonemas de pessoas que nos deram conta dos montantes que transferiram, informando antes que queriam fazê-lo para as nossas contas bancárias para terem a certeza que o dinheiro chegava; outros que nos pediram que os representássemos na doação e não quiseram ser identificados. Arrisco escrever que em todos os casos nunca fomos enganados, nunca demos visibilidade a situações de pedidos de ajuda humanitária que não merecessem a ajuda dos leitores. Não quero saber, nem para o caso interessa compreender as pessoas que ao longo dos anos pediram ajuda, mas que se negaram a dar o rosto pedindo que tivéssemos dó. Há casos gritantes de familiares que, por pudor, aceitam campanhas de solidariedade, mas fogem à exposição como o diabo foge da cruz. E como eu os compreendo. Não sei se não faria o mesmo se precisasse da ajuda anónima; se, para viver, tivesse que pedir publicamente que me ajudassem a pagar aos médicos e aos hospitais. Com muitas pessoas o orgulho fala mais alto que o sentido da sobrevivência. Há muita gente que prefere morrer de dor que de vergonha. E pedir dinheiro e solidariedade à comunidade para salvar a vida, ou viver mais uns anos, ou para pagar tratamentos que dão qualidade de vida, pode custar mais que aguentar a dor e o sofrimento. O Estado falha na grande maioria dos casos porque somos um país pobre; e somos ricos, às vezes, quando estão em causa os interesses de pessoas que se movimentam muito bem junto dos políticos ou de quem os representa nas instituições.

No dia em que escrevo este texto ligaram-nos a dar conta que havia uma família mobilizada para ajudar uma outra família que precisa de ajuda. Mas estavam a encontrar dificuldades. Perguntaram-nos como deviam proceder já que temos informação privilegiada. Quiseram saber como era possível negarem a ajuda que estava a ser disponibilizada. Não queriam acreditar que não tivéssemos uma resposta; como se fôssemos especialistas na matéria e não profissionais da comunicação social.

A comunicação social portuguesa notícia com regularidade um morto por esfaqueamento na Tailândia, ou na Austrália, às vezes vários feridos graves numa escola de uma cidade dos EUA, ou num país do Oriente. Nós vemos e não podemos deixar de pensar no velho ditado: um desastre de mota na nossa terra é uma tragédia, se morrerem 100 pessoas num desastre na China é só mais um desastre. A ideia com que ficamos muitas vezes é que a comunicação social portuguesa, na sua generalidade, só publica certas notícias porque lhes chegam limpinhas sem osso. Não têm trabalho de redacção e muitas vezes de edição. As notícias de proximidade como aquelas que nós escrevemos exigem gente no terreno, uma porta aberta para a comunidade, gente que do outro lado não produz informação só para sustentar poderes políticos e económicos, mas para servir a comunidade. Muito raramente é notícia um apelo nacional para acudir a uma pessoa que não tem o apoio do Estado para se salvar de uma doença, de uma vida no fio da navalha por não ter os recursos próprios para pagar tratamentos, por não ter como muitos outros o apoio do Estado que para uns é pai e para outros enteado. JAE.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A morte saiu à rua e levou o João

No passado sábado recebi pela manhã a notícia da morte do meu irmão. Era um dos dias em que íamos estar juntos por causa de uma festa em família. Segundo a sua companheira Adelaide, morreu com um sorriso nos lábios, a dormir, quando o coração, já com problemas, resolveu avariar de vez.

Quem tem o vício de escrever morre um pouco todos os dias nas palavras que ficam gravadas, no papel ou na memória do computador. Daí que muitas vezes fiquemos pelo caminho porque achamos que já escrevemos tudo o que de mais importante tínhamos para escrever. Sei alguma coisa do assunto porque o meu passatempo favorito é ler biografias e ver documentários. Também gosto de escrever, mas tenho rejeitado alguns convites para esse trabalho fácil, mas só aparentemente, pelo menos para quem não gosta de vender gato por lebre e tem que esturrar as pestanas. Uma crónica é diferente: não exige pormenores, é uma encomenda do espírito que despachamos com as impressões que ficam das memórias recentes que podem até ser as que vivemos há mais tempo, mas as que mais duram. No passado sábado recebi pela manhã a notícia da morte do meu irmão. Era um dos dias em que íamos estar juntos por causa de uma festa em família. Segundo a sua companheira Adelaide, morreu com um sorriso nos lábios, a dormir, quando o coração, já com problemas, resolveu avariar de vez. Somos os dois herdeiros da calvície dos nossos avós, dos problemas com o coração do nosso pai, entre outras heranças, mas tão diferentes um do outro como o chão da lezíria do chão da charneca.

Eu fui muito mais privilegiado que ele porque quase tudo o que ele aceitava do nosso pai eu rejeitava. Nunca era coisa boa, e, por isso, o João, que tinha sete anos de diferença de mim, aceitou aprender o ofício de pedreiro que o meu pai também queria para mim. Não tinha como ajudá-lo nessa altura. Ajudei mais tarde quando me procurou e trazia uma solução para mudar de vida, que aprovei de imediato e à qual dei a ajuda fundamental para que fosse em frente. Nada disso o impediu de viver uma vida com altos e baixos, como todos nós que somos gente. Os nossos sete anos de diferença foram a bênção que Deus me deu, se é que há Deus e ele tem alguma influência no nosso destino; para a minha mãe poder cuidar do João, o Joaquim foi viver para a casa da avó Ilda, que me ensinou tudo, tudo, e que é, ainda hoje, muitas décadas depois de a encontrar morta na beira da cama, a pessoa que mais influenciou a minha vida espiritual, e a que mantenho como referência, sem excepções, em tudo o que faço. Curiosamente, o João era todo a cara e o espírito da família da minha avó materna, enquanto eu sou mais a do meu avô paterno. Mas aqui o destino provou que não controlamos tudo. A minha avó era a única da família materna que escrevia diariamente capítulos da Odisseia, sem que alguém desse por isso, enquanto a família do meu avô paterno inspirava-se diariamente no brilho das espadas dos primeiros reis de Portugal, coisa que dura até hoje. 

Que me lembre nunca me zanguei com o meu irmão. Ele tratava-me carinhosamente por mano, mas eu nunca consegui ir além do trato pelo nome próprio. Sem dúvida superioridade do irmão mais velho que sabia ser a referência do irmão mais novo. O João tinha tudo aquilo que sempre é valorizado em sociedade; era alegre, brincalhão, atirava os foguetes e ia apanhar as canas, não era desconfiado, perdoava com a facilidade de um São João Gualberto, e, para ele, viver com um euro devia ser tão dramático como viver com um milhão, a confiar nas voltas que deu à vida, que foram muitas, algumas delas dramáticas, depois de me pedir opinião e ter feito o contrário daquilo que eu lhe aconselhava.

Não tenho, certamente, uma pequena parte dos valores humanos que o João tinha, mas também, tal como ele, aguento as consequências do meu feitio, das minhas opções de vida, e como não tenho nem faço amigos com a facilidade que ele fazia, sigo em frente com o pensamento em Santo Agostinho: “O mundo é um livro, e quem fica sentado em casa lê somente uma página”.

É difícil falar/escrever sobre a morte de um irmão quando ele era, na realidade, o único que restava da minha família mais próxima, depois da morte de pais, avós e tios. Entretanto construímos as nossas famílias, mas isso já é para outra crónica, ou então parte da tal biografia que um dia alguém há-de escrever, quem sabe alguém que ainda está a aprender a ler, e nem sabe nem sonha o que Santo Agostinho teve que viver para ser Santo Agostinho. JAE.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

A floresta portuguesa e as máfias que nos escrevem em nome do Governo

Portugal não tem uma política para a floresta e a que tem é desastrosa. O que está a acontecer com o negócio da cortiça e os roubos é de bradar aos céus.

O MIRANTE está a publicar até Setembro um extenso dossier sobre a floresta portuguesa, a eucaliptização e a problemática dos fogos. Pela primeira vez assumimos um trabalho editorial que ultrapassa a nossa área de influência. Nesta edição publicamos uma notícia sobre a venda da cortiça da Companhia das Lezírias que dá que pensar, e, por mais incrível que pareça, ultrapassa todos os problemas da nossa floresta que ao longo dos últimos dois meses temos esmiuçado com autarcas e várias autoridades. A baixa de preços de que se queixa a Companhia das Lezírias é quase a falência da gestão da floresta, e merece da parte do Governo uma atenção especial que não tem sido dada na generalidade à floresta no seu todo. Para complementar, esta semana publicamos na edição online uma entrevista com o presidente da Câmara do Gavião, que diz que os roubos de cortiça são uma tragédia para o montado de sobro, porque a forma como os gatunos fazem a extracção mata os sobreiros. E quando os gatunos são apanhados em flagrante, o que é raro, “as molduras penais são brandas”, o que nos leva a tirar a seguinte conclusão: ainda é possível neste país de incendiários e ladrões de cortiça salvar alguma coisa sem andarmos acompanhados com agentes da GNR, como é o caso dos deputados e governantes deste nosso torrãozinho de terra?

A edição impressa de jornais está para o serviço público como o regime democrático está para a prática de políticas de ajuda aos mais desfavorecidos. Serve a nota para dar conta que o Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) está a servir a uma Máfia para cobrar verbas avultadas a todas as pessoas que têm pedidos pendentes nesta instituição. A empresa editora de O MIRANTE também entra nesta novela porque recebeu exactamente o mesmo ofício que está a ser enviado às pessoas e entidades com pedidos de registo em análise ou em situação de deferimento. Os responsáveis avisam no sítio da INPI que devemos ter cuidado e que o correio que recebemos é falso. Mas quem é que pede um registo no sítio da INPI e depois vai lá saber notícias sobre a actividade do organismo? E sabendo que há vítimas, os responsáveis não têm a obrigação de avisar directamente todos os que têm pedidos pendentes em vez de desafiarem os utentes a recorrerem à Polícia Judiciária, quando são eles que o deveriam fazer usando toda a informação que já têm em seu poder? Os ladrões usam um IBAN de uma conta bancária na Polónia, país que pertence à União Europeia desde 2004. Não é estranho as polícias não se entenderem no ataque à bandidagem?



Trago aqui este exemplo porque acredito que muita gente caiu no engano. Estou habituado a receber diariamente emails falsos e cairia neste logro se não tivesse assessoria à altura. A imagem que ilustra este texto é significativa do engenho dos pedidos fraudulentos de pagamento de taxas em nome do INPI. O Governo português e os seus organismos têm obrigação de usar a comunicação social para alertar a população. E comunicar pagando é uma forma de contribuir para uma democracia mais forte e musculada como se pode provar nos países mais desenvolvidos da Europa, como é o caso da vizinha Espanha. No dia em que recebi este correio manhoso recebi também a informação de que o Governo da Catalunha fez um investimento recorde de publicidade nas empresas de comunicação que chegou aos 50 milhões de euros, quase 9% mais do que no ano transacto. O valor gasto pelo Governo regional está muito perto do total gasto pelo Governo do país que terá gasto na ordem dos 88 milhões de euros, ou seja, enquanto o governo catalão atinge os 6,2 euros por habitante, o governo nacional gastou apenas 1,8 euros. JAE.